Barbaros? são todos burros!

É apenas um bárbaro burro e analfabeto. Não se importe com ele.  – últimas palavras de um guerreiro Zenithar ao se referir a Conan, da Ciméria.

“Eu até gosto de jogar com bárbaro, mas acho muito limitador, sabe? São todos assim, burros e retardados. É legal no começo, mas depois você fica meio que preso ao conceito da classe. Não pode ajudar na estratégia nem dar boas ideias porque são todos analfabetos”.

Colhi esta frase num bate-papo no último encontro de rpg que eu fui em 2013. A frase ficou na minha cabeça por um tempo.  Fiquei divagando sobre ela e percebi como a maioria das pessoas tem ideias absurdamente erradas sobre bárbaros. Então resolvi escrever este pequeno artigo explicando o que é, ou o que foi, historicamente e fantasticamente, um bárbaro e porque ele é muitas coisas, menos um burro ou retardado.

Comecemos pelo conceito da palavra “bárbaro”. Segundo Webster (1972) “Bárbaro” é um termo utilizado para se referir a uma pessoa tida como não-civilizada.  A palavra é frequentemente utilizada para se referir a um membro de uma determinada nação ou grupo étnico, geralmente uma sociedade tribal, vista por integrantes de uma civilização urbana como inferiores, ou admirados como nobres selvagens.

A partir da definição de Webster temos algumas linhas a traçar. A primeira delas é que o termo bárbaro só existe se for ele estiver inserido numa situação de comparação de duas ou mais culturas diversas, sendo que uma delas é dita como “civilizada”. Gordon Childe (1978) nos oferece a ideia da sequência evolutiva “selvajaria – barbárie – civilização”, entendida como os estágios evolutivos obrigatórios das sociedades antigas desde a passagem de um sistema social/econômico/tecnológico de caçadores-coletores (“selvageria”) para agricultores e pastores (“barbárie”) até a concentração em cidades e divisão social (“civilização”).  Ou seja, para Childe (1972) o bárbaro é alguém que pertence a um grupo social que está num estágio evolutivo social diferente.  Foram os trabalhos de Childe que popularizaram os conceitos de revolução neolítica (ou revolução agrícola) e revolução urbana para marcar a passagem entre tais estágios evolutivos da humanidade.

O segundo ponto que podemos tomar é subjetivo ao primeiro, mas vale ser explicitado de forma mais clara: a ideia de inferioridade no desenvolvimento civilizatório só existe quando ela parte da dominação cultural de uma cultura sobre outrem. Não significa, realmente, que uma é superior a outra.

A terminologia  da palavra “bárbaro” nasce do grego. Berutti (2010) resgata o termo: A palavra “bárbaro” provém do grego antigo, βάρβαρος, e significa “não grego”. Era como os gregos designavam os estrangeiros, as pessoas que não eram gregas e aqueles povos cuja língua materna não era a língua grega. Principiou por ser uma alusão aos persas, cujo idioma cultural os gregos entendiam como “bar-bar-bar”.

Porém, foi no Império Romano que a expressão passou a ser usada com a conotação de “não-romano” ou “incivilizado”. O preconceito perante os povos que não compartilhavam os mesmos hábitos e costumes é natural dos habitantes dos grandes centros econômicos, sociais e culturais, e caracteriza-se pelo etnocentrismo. Atualmente, a expressão “bárbaro” significa não civilizado, brutal ou cruel. Era um termo pejorativo que não condizia com a realidade pois, apesar de não compartilharem de alguns aspectos da cultura romana e não falarem o latim, tais povos tinham cultura e costumes próprios.

Ou seja, desmontamos a argumentação do amigo jogador é que eles são ignorantes. Eles têm apenas uma cultura diferente da nossa.  Quando falo “nossa” aqui me refiro á cultura dominante presente na situação.

Então se o bárbaro é alguém que não comunga da minha cultura dominante, o que ele é? Alguém que tem cultura própria, costumes próprios, linguagem e alimentação próprias, diferentes da nossa.

“Mas os bárbaros são ignorantes. Analfabetos.” Será mesmo? O fato de não serem capazes de “traçar sons” (Michael Crichton: 1976) não os faz menos perigosos ou inferiores. Ao longo da história da humanidade diversos povos e culturas foram tachados de bárbaros e inferiores porque não bebiam vinho ou porque não falavam latim, mas você seria capaz de dizer que povos como os Alanos, Anglos, Suábios, Burgúndios, Cartagineses, Celtas, Francos, Frísios, Germanos, Godos, Ostrogodos, Visigodos, Hunos, Lombardos, Lusitanos, Saxões, Suevos, Vândalos e Vikings são inferiores ou ignorantes?

Não esqueça que o rpg é uma invenção estadunidense e como tal impregnado com sua cultura ocidental, judaico-cristã. Subjetivamente seus conceitos ideológicos do que é ser “bom”, do que é ser “mal” do que é “desejado” e do que é ser “indesejado” estão presentes. A própria ideia de justiça é puramente cristã, assim como clérigos com funerais ocidentais e símbolos divinos e cemitérios.

Cabe aqui resgatar o filósofo alemão Nietzsche, em alguns de seus textos clássicos como “Gaia Tribo”, “Crepúsculo dos Ídolos” e “Além do bem e do mal”. Para os povos primitivos (primitivo no sentido de primeiro e não de ultrapassado) temos uma inversão dos valores cristãos. Para o cristão, o bom é o fraco. O forte é mal. Veja, por exemplo, a ideologia por trás de Cristo: apesar de ter todo o poder do universo e além, ele aceita ser torturado e condenado para salvar a humanidade como um herói estóico e trágico. Mesmo hoje torcemos pelo mocinho dos filmes e novelas que durante toda a história sofre o pão que o diabo amassou nas mãos do vilão poderoso. Aliás, me arrisco a dizer que gostamos de torcer pelo mais fraco. Já para os povos bárbaros, não cristãos, o bom é aquele capaz de empregar a força. É aquele que tem valor para a sociedade. Você vale á medida que pode impor sua opinião. Fracos são escravizados ou mortos. Ser escravizado é ruim, portanto ser fraco é ruim. Ser fraco é o mal. Pense nisso por um segundo: os vikings desenvolveram toda uma técnica de navegação para sair da Escandinávia e assolar o mundo dos séculos IX e X, com armas e estratégias militares que colocaram o mundo civilizado de joelhos. Você ainda diria que são burros e analfabetos?

Então um bárbaro é só alguém culturalmente diferente. Mas ele ainda é inferior? Nunca foi. Pegue por exemplo um índio sem contato ou com pouco contato com a civilização urbana e o solte em São Paulo e peça para ele interagir com smartphones e coisas assim: com certeza ele não vai conseguir. Quer dizer que ele é burro e ignorante? Não. Quer dizer que ele foi educado numa cultura e num mundo onde outras habilidades são necessárias. Pegue um moleque paulista, acostumado a metrô, iphone e navegar no face e solte-o no meio da floresta amazônica. Vejamos quem é o ignorante agora.

Vou colocar a seguir um exemplo de uma cultura bárbara. Uma espécie de viking fantástico.

As primeiras gerações de Vikings, buscavam em sua maioria, riquezas e não terras. Isso especialmente no caso de reis e dos nobres que dependiam de uma renda polpuda para se sustentar no poder. Outra razão é que os Vikings costumavam ter mais de uma esposa e muitos filhos. Geralmente apenas o primogênito recebe a herança da família e os outros filhos têm de “se virar” por conta própria. Os filhos que não recebem herança compunham uma grande elite de guerreiros perigosos, obrigados a se virar sozinhos, a qualquer custo, quer por conquistas internas, quer por pirataria fora do país.

Os Vikings dispõem de avançados meios de transporte que facilitavam os ataques relâmpagos: desde a cavalaria em lobos gigantes, passando pelo seu principal meio de transporte: a nau caçadora (Drakkar). Os engenheiros modernos consideram este barco como uma das maiores conquistas tecnológicas do mundo conhecido.

Para os homens, o que vale é a liberdade e o culto pela força de modo que quem não soubesse se defender perdia direito à propriedade. As pendências sem solução eram e ainda hoje são resolvidas em lutas e o vencedor era considerado o representante da vontade dos deuses.

As mulheres têm seus direitos assegurados, governavam a casa e praticavam a medicina, embora não tivesse assento no Poder Judiciário. Foram as mulheres anãs que descobriram a relação entre o sexo e a gravidez, ensinando o segredo para conter a gravidez a outros povos. Por isso os não confiavam nem mesmo os segredos mais íntimos com suas esposas.

Talvez a geografia do Norte do Mundo tenha, juntamente com outros fatores, influenciado muito os antigos habitantes a ponto de possuírem uma religião, cultura, artes e valores morais próprios e inconfundíveis. O esforço individual para conseguir sobreviver da pesca e da caça (todos os países são muito frios e a agricultura não era praticada) foi o fator responsável pelo aguçamento do espírito bélico. Séculos depois, os Vikings mostrariam ao Mundo toda a sua sede de riqueza, na guerra.

Os Vikings normalmente são enterrados num barco ou sob pedras dispostas na forma de um barco. Junto eram enterrados alimentos, armas, animais abatidos, ornamentos e às vezes até mesmo uma escrava sacrificada. Havia casos em que a criada da rainha era enterrada com ela.

A morte em combate é ansiada pelos homens. Morrer velho e doente numa cama estava entre os piores temores que um Anão pode ter. Os velhos eram respeitados por sua sabedoria, mas muitos deles acabavam por virar andarilhos ou ermitões apenas para não virarem “fardos” para seu povo ou clã.

Um jovem que tinha se ferido gravemente em batalha ainda poderia ser um guerreiro. Muitas são as lendas contadas pelos Skalds sobre guerreiros de um braço só, ou cegos de um olho. Mas amputações mais severas, tais como a perda de uma perna ou de ambas, ou cegueira total, muitas vezes acarretavam numa vida triste e infrutífera, preso à casa e à vida das mulheres. Incompatível com a vida guerreira, muitos desses jovens acabam por se suicidar, de pura tristeza e incapacidade.

Poucos são os Vikings alfabetizados. Isso é mais uma competência de alguns clérigos ou um ou outro Governante, mas a grande maioria da população é analfabeta. O que não chega a ser, no cenário onde vivem, uma desvantagem. O alfabeto viking conta com 11 caracteres. Escritos mais antigos podem ser encontrados até 17 caracteres diferentes, mas com o passar do tempo, os Vikings foram achando que tinhas “letras demais” e foram cortando. Toda a sua tradição e costumes é contada oralmente.

Vikings são guerreiros por excelência e a maioria dos personagens terá uma “segunda profissão” além de guerreiro. Esta segunda profissão é normalmente alguma outra relativa à sobrevivência, tais como: caça, pesca, sobrevivência (ártico), montanhismo, escalada, navegação, marinhagem, ferreiro, artesanato, carpintaria, etc. Era muito raro, mas mulheres também iam às batalhas. Mulheres Vikings assim conhecidas como Senhoras da Guerra são formidáveis combatentes, muitas vezes usadas como espiãs.

Então, o que dizer dos bárbaros agora?

1 comentário (+adicionar seu?)

  1. asbel
    jan 08, 2014 @ 01:28:57

    Excelente!

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