Os novos deuses do Olimpo – Capítulo 17

Descobertas serão feitas e coisas serão quebradas

Jade abriu os olhos sentindo a cabeça latejar. A iluminação indireta da sala de recuperação era familiar e ela deixou os olhos entreabertos enquanto eles se acostumavam a iluminação difusa da sala. Ela estava coberta de pequenos curativos, dos pés a cabeça. Cada movimento doía um pouco e ardia como uma centena de cortes de papel pelo corpo todo. Ao lado da sua cama estava uma mesinha branca, com um vaso de flores e um copo de suco de ambrosia, coberto por um lenço branco e um canudo de plástico ao lado. Um ruído chamou sua atenção e ela virou a cabeça para o outro lado. Era Nathália.

As ataduras de Nathália cobriam todo o peito e a lateral do corpo. Eram duras e num ponto logo abaixo da axila estava uma mancha de sangue pisado. Ela se esforçava em silêncio para vestir a sua camiseta do acampamento. Na mesinha ao lado dela o mesmo vaso de flores, mas o copo de ambrosia estava quase vazio. Num movimento Nathália virou-se e duas se encararam.

Foram alguns segundos de silêncio espantado. Na cabeça de Jade vieram todos os atos de loucura que havia cometido. Mas não era ela. Alguma coisa ou alguém havia tomado conta do seu corpo, alimentando de forma doentia sentimentos de rancor que ela nem sabia que existiam, fazendo-a atacar uma colega campista. O espanto deu lugar ao remorso e ao arrependimento legítimo. As lágrimas não demoraram a nascer em seu rosto, escorrendo até manchar a camisola que todos os doentes eram sumariamente obrigados a usar. O ver as lágrimas da amiga, Natália desmanchou o rosto sisudo e sua expressão tornou-se serena e aconchegante. Ela se aproximou de braços abertos e envolveu Jade num abraço longo. Logo as duas estavam chorando. Longos minutos se passaram, onde nada se ouvia exceto a respiração entrecortada por soluços e tomadas de fôlego das duas.

 – É bom ver que as duas já estão em condições de chorar e de se vestir. Ainda bem porque tem uma verdadeira multidão lá fora esperando para saber notícias. E sinceramente, estava ficando sem opções médicas para dar. Vem cá, alguma de vocês namora aquele novato, o Oliver? Ele não pára de perguntar de cinco em cinco minutos como vocês estão. Menininho chato aquele.

Jade e Nathália reconheceram de imediato a voz da Dra. Cassandra, a mais famosa das filhas de Apolo. Famosa por várias razões: desde seu lendário dom de cura, passando pelo seu empenho como profissional e heroína até o seu casamento com um filho de Hades. Uma filha da luz casada com um filho do senhor das trevas. Não deixava de fazer valer aquela velha máxima de que os opostos se atraem. A dra. Cassandra era irmã gêmea de Margareth, a oráculo, e pelo jeito o tempo tinha sido bem mais gentil com ela.

Ela andou até a cabeceira de Jade enquanto o abraço das duas meninas se desfazia. Ela pegou o copo de ambrosia, tirou o lenço e deu a Jade. Beba, vai te fazer bem, ela disse com uma expressão de “melhor beber porque eu não aceito não como resposta”. Enquanto Jade bebia o suco de ambrosia em goles pequenos a doutora voltou suas atenções para Nathália. A expressão de altivez da menina se desfez quando a médica olhou feio para os curativos.

– Nathália, eu acho que eu já expliquei isso uma centena de vezes para você e seus irmãos. Filhos do Deus da Guerra são bons para causar ferimentos, mas saram na mesma velocidade que o resto de nós. A não ser que você queira passar uma semana de repouso sob minha atenta supervisão pessoal é melhor voltar para aquela cama e esperar o suco de ambrosia fazer efeito. A sua regeneração é mais lenta que a ambrosia comum, mas você não corre o risco de entrar em combustão espontânea enquanto bebe.

Jade se levantou e foi ao banheiro. Suco de ambrosia realmente ajudava a soltar o intestino mais do que qualquer iogurte com nome chique. Mas foi Nathália que quase engastou ao ver a tatuagem nas costas de Jade: um enorme sol, e dentro dele no formato da letra grega ômega, uma harpa com duas flechas cruzadas. Nath levou a mão à boca, como se quisesse impedir o gritinho de espanto. Estava diante de um dos heróis da profecia. A palavra “traidora” nasceu na sua mente antes que ela pudesse censura-la. Jade percebeu e olhou no espelho do banheiro e subitamente perdeu qualquer vontade de usar o toalete.

– Vocês estão bem, que bom! – a voz era de pura felicidade e vinha de Karina. Ela estava com roupas de treino e trazia uma sacola com espadas de madeira que foi prontamente jogada no chão do quarto, para desespero da dra. Cassandra.

– Sabem meninas, às vezes, só às vezes eu queria que o meu marido me ajudasse nisso aqui a colocar ordem nessa clínica. – desabafou a doutora, pegando a sacola de treinos com a ponta dos dedos, como alguém que catasse do chão uma fralda recém-usada.

– Olha amor, o seu desejo pode acabar se realizando hein? – Roberto pôs a cabeça para dentro do quarto, com seu bronzeado inexistente contrastando com seu terno marrom e a camisa preta de gola rolê (que deve ter sido moda em algum ponto perdido entre as décadas de 60 e 70). – E então, as guerreiras estão bem? Ou vão começar a jogar flechas e pedras umas nas outras?

Jade fez menção de responder e Nathália quis protestar, mas Roberto tinha uma fama maior do que a coragem das duas. O filho de Hades estava diante delas, falando com elas. Era o bastante para pôr a maioria dos campistas com pesadelos por uma semana.

– Não se preocupem – disse ele em tom casual, porém firme – nós já sabemos que a mente de Jade foi possuída. Temos boas notícias e más notícias. Qual delas vocês querem ouvir primeiro?

A careta de Jade só não foi pior que seu estado de espírito. Ela já tinha ouvido falar de possessão antes, mas nunca pensou que pudesse acontecer justamente com ela. Ela sempre achara que sua mente seria mais forte, afinal era a favorita de seu pai até aquele dia. Ele a chamava de “meu pequeno raio de sol”.

– Ok. As más notícias primeiro: Só não sabemos por quem, ou se você está livre da influência dessa dominação. Aliás, não sabemos nada. Se não fosse por Lucas, provavelmente uma de vocês, ou mesmo as duas estariam mortas.

A dra. Cassandra limpou a garganta e olhou fixamente para o marido que entendeu o recado na mesma hora, emendando a sua fala em seguida:

– Claro, não podemos esquecer dos talentos da minha princesinha, a médica dos deuses, dra. Cassandra. – ele andou em direção a ela, com os braços abertos como se pedisse um beijo. Ela negou com uma expressão de quem diz “na frente das meninas não”. Ele entendeu e afastou-se, continuando a falar. – E agora a julgar pelo que estou vendo já temos a última heroína da profecia. Não sabia que era você Jade. Nathália foi a primeira, Eric e Oliver foram os seguintes. Jade fecha como a quinta de vocês.

– E quem é o quarto herói?  – disparou Karine, olhos arregalados, mais de medo do que de curiosidade.

– O mais improvável de todos. Lucas, da casa de Demeter. Bom, assim que vocês se recuperarem, a missão vai ter início. Acho que vocês tem muito o que falar. Amor, vem aqui fora um minuto?

Ele e a dra. Cassandra deixaram o quarto, levando Karine e suas espadas de treino com eles. Jade e Nathália estavam sozinhas de novo, ambas se olhando, num silêncio muito desconfortável.  Poucos momentos que pareciam durar uma eternidade.

– Então Jade, você é a quarta heroína, certo? – perguntou Nathália depois de alguns segundos de hesitação. Apesar de ter acabado de tomar um pouco de água sua garganta estava seca.

– É, sou eu – disse ela abraçando desconfortavelmente a si mesma – isso quer dizer que vamos sair em missão logo, não é?

– Sim, é isso mesmo.

Silêncio de novo. Por um momento Nathália chegou a desejar que acontecesse algum ataque. Mas ao invés disso a porta foi aberta e alguns amigos entraram porta à dentro. Oliver, Eric, Dezan e Lucas entraram no quarto. Lá fora podia-se ouvir as reclamações da dra. Cassandra. Jade poderia jurar que em certo momento ouviu um urro que se parecia muito com o de um morto-vivo do filme “madrugada dos mortos” mas achou que estava apenas ouvindo coisas.

– Vocês estão bem! Que legal – disse Eric, vestindo uma bermuda caqui de bolsos bem largos e uma camiseta do santuário – vocês passaram quase uma semana aqui. Ficamos muito preocupados.

Quase uma semana inteira, pensou Jade. Então os ferimentos eram bem mais sérios do que ela pensava. Ou isso ou a Dra. Cassandra estava perdendo o toque.

A reunião informal começou sem muitos rodeios, como Nathália gostava. Os meninos foram direto ao ponto explicando que a situação no Olimpo deteriorou muito com a prisão de Zeus. Nos quatro cantos do mundo os deuses e seus seguidores e parentes estão sendo sistematicamente atacados. O inimigo não tardou em sua ofensiva. Mesmo o santuário tinha sido atacado duas vezes nos últimos dias. Por isso o professor Roberto, a Dra. Cassandra e outros semideuses veteranos tinham se juntado na defesa do lugar.

– Nenhuma baixa, felizmente – comentou Dezan sorrindo, tentando transmitir confiança.  – mas ainda não sabemos como eles atacam. Num momento a área esta vazia e no outro eles atacam.

– Pelo menos descobrimos parte de seus planos – disse Eric tentando chupar as últimas gotas de suco de ambrosia que restaram no copo de Jade.

– “Descobrimos”? – perguntou Oliver, com a sobrancelha erguida.

– Ok, a Bêpê descobriu. – Eric fez uma careta ao ser contrariado, mas continuou – A menina é um gênio no computador. Eles estavam atrás de nós cinco mesmos. Ao que parece eles já sabiam da profecia antes de nós. Mas não apenas nós. De alguma forma estavam atrás de nossos pais. Pelo menos os que não são deuses. É bem provável que sejam responsáveis pela morte ou desaparecimento de algum de nossos parentes.

Jade engasgou. A sua avó materna desapareceram no verão passado quando estava voltando do santuário carregando algumas roupas suas para serem costuradas. Será que ela foi mesmo levada por aquelas coisas?

– Ao que tudo indica esse inimigo novo está se aliando com forças antigas. Muitos arquivos citam gigantes, quimeras e outras coisas mais repulsivas – a imagem do katomeros surgiu na mente de Oliver – mas ainda não descobrimos nada de realmente útil. O que sabemos é que temos de partir em breve. Seja lá quem for este novo inimigo descobrimos que eles são suscetíveis a relâmpagos.

– Os filhos de Hefesto já estão trabalhando em azagaias que disparam relâmpagos, mas ainda estamos um pouco lentos na produção – disse Oliver – Estou trabalhando com eles. Bom, além disse temos mais coisas para dizer. Sr. Dezan?

– Ok, parece que os poderes de Jade como oráculo finalmente emergiram. Ela refez a profecia da Sra. Margareth com uma precisão assustadora.

– E para onde nós vamos? – Jade não segurou-se curiosidade, a cabeça girando com tantas informações.

– Fortaleza, capital do Ceará – disse Eric com um tom pensativo, que definitivamente não combinava com ele. – Onde o fogo é feroz.

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