Os novos heróis do Olimpo – capítulo 18

Na estrada

Os dias seguintes foram de preparação intensa. Todo mundo praticamente se mudou para o chalé 00. Se preparar para uma missão dava trabalho: tinham de pensar em como chegar a Fortaleza, que equipamento carregar, as roupas, enfim, era uma verdadeira maratona.

Apesar de toda a bagunça e dos riscos Oliver estava feliz. Havia reencontrado a mãe depois de tantos anos e agora, pela primeira vez na vida, tinha amigos da mesma idade. Não apenas amigos quaisquer: amigos que partilhavam boa parte do que ele mesmo era, do que ele sentia e de certa forma, do mesmo destino. Ele estava se sentindo em casa.

Os dias eram divididos em preparação e treino. Tinha melhorado bastante com o uso da espada, embora dos cinco da profecia fosse o menos habilidoso. Até mesmo o novato, o Lucas, se saía melhor do que ele.

Ao final de mais uma semana estava tudo pronto. Iriam com a van do santuário até a rodoferroviária de Brasília e de lá pegariam um ônibus. Oliver e BêPê já tinham preparado um monte de identidades falsas e ele mesmo já tinha marcado pelo menos uma dúzia de passagens aéreas para ele e seus amigos. Se os inimigos estivessem monitorando a rede, como ele achava que estavam, teriam muito trabalho para seguir todas aquelas pistas falsas.

A van do santuário era uma citroen branca, pintada com faixas amarelas onde se lia “escolar”. A porta lateral se abria com facilidade e ela podia carregar até 12 pessoas por vez. Na parte de trás contava com teto solar e contava com espaço extra para carregar armas e armaduras.

Filoctetes dirigia a van e a viagem foi mais que tranquila até chegarem a uma cidadezinha chamada São Sebastião – quase metade do caminho até a estação de ônibus. Eric usava suas costumeiras bermudas cargo, cor de caqui, alpercatas de couro e uma camiseta do santuário, coberta com uma dúzia de botons diferentes. Trazia uma mochila de viagem, dessas que os mochileiros da TV gostam de usar. Do lado dele, a contragosto, vinha Jade. Os cabelos foram amarrados num rabo-de-égua firme e tradicional. Usava a camiseta do santuário por baixo de uma jaqueta de curo fino marrom desbotada. As botas pretas de cano longo, morriam em calças jeans strech de azul muito vivo. Além da mochila de viagem trazia uma alijava coberta nas costas. Completando este banco da van, entre jade e Eric vinha Nathália. O seu guarda roupa parecia ter sido tirado de uma loja de suplementos militares: Ela vestia um par de calças camufladas cinzas do exercito, coturnos pretos e bem lustrados – desses feitos para marchas muito longas – camiseta do santuário (com mangas cortadas fora) e luvas sem dedos. Amarrada na cintura, um moleton da Royal Navy Academy. Sentado sozinho no fundo da van, o pensativo Lucas vestia-se como se estivesse indo para uma feira hippie: óculos redondos roxos, à moda de Jonh Lennon, uma camiseta indiana branca cheia de detalhes de costura por cima da camiseta do santuário, calças folgadas de algodão simples e costura reforçada. Calçava um par de chinelos tão gastos que Oliver tinha certeza que eles já tinham visto mais do mundo que qualquer um dali. Já Oliver estava com seu agasalho do Linkin Park, boné preto do Chicago Bulls, calça jeans e um par tênis confortável. Além da mochila que herdada do pai, ele trazia nas mãos o seu inseparável tablete-celular-torradeira. Frank havia recebido um upgrade de peças. Incrível como alguns desenhos podem ser a diferença na explicação de instruções para um filho de hefesto.

Sentado ao lado de Filoctetes, na cabine da van, a tarefa de Oliver era escanear as notícias e os movimentos incomuns das forças de segurança. Ele dançava os dedos pelo tablete, abrindo e fechando páginas numa rapidez impressionante. De tempos em tempos pedia que virasse em alguma rua especial ou fizesse um desvio para uma quadra comercial. E sempre que Filoctetes fazia isso eles conseguiam desviar a tempo de alguma blitz ou de alguma operação de reparos do governo do estado ou mesmo do atendimento de uma ambulância do samu. Apesar da cidade apresentar a mesma pulsação de sempre os ocupantes da van sabiam que aquilo era pura ilusão. Qualquer deslize e estariam cercados por homens da giges, homens de preto ou coisas ainda pior.

Em pouco tempo a van chegou no setor militar urbano de Brasília – um bairro planejado para receber e servir de moradia para todos os membros das forças armadas. Era um conjunto de casas, clubes e campos verdes muito aprazíveis, a não ser pela eventual passagem de um jipe do exército com soldados armados com rifles de assalto ou encontrar um tanque de guerra M60 Patton estacionado casualmente na frente de alguma residência. Durante muitos anos ali fora a única casa que Nathália havia conhecido, antes de Ares, o deus da guerra reclama-la como filha. Casualmente ela começou a comentar:

– Quando eu estudava no colégio militar, depois das aulas vinha treinar judô e jiu-jitsu naquela academia. Bem ali na frente tem uma praça que serve o melhor cachorro quente de Brasília. Ah, estão vendo aquela casa ali, com uma dúzia de soldados na porta? É a casa do General Cordeiro da Cruz, um dos mais famosos filhos de Ares de todos os tempos – pelo menos no brasil.

– E ali, senhoras e senhores, temos uma árvore. Mas não é uma árvore qualquer, não senhor. Ali é uma árvore com 12 soldados camuflados em treinamento. “Soldado Oliver eu não vi você no treino de camuflagem! Obrigado senhor!” – ao terminar de falar Eric fez uma caricata imitação de um soldado batendo continência. Se fosse um show de standup comedy ele teria uma reação muito melhor dos seus amigos. Jade abriu um leve sorriso, assim como Lucas, Oliver riu alto, mas o seu riso morreu ao ver o rosto de Nathália pelo retrovisor. Filoctetes riu alto também, mas depois parou abruptamente, fechando a cara de novo – como aliás ele estava a viagem toda.

– Você deveria ter mais respeito pelos outros, Eric. Especialmente porque o seu pai usa uma cuia com asas de pombo na cabeça e é conhecido como o patrono dos ladrões.  – Filoctetes soou grave como um professor severo que corrige um aluno que tinha acabado de fazer alguma traquinagem na sala de aula. – preciso de vocês vivos e focados. Concentrados na sua missão. Preciso de vocês…

Filoctetes não chegou a completar a frase. O asfalto logo a frente da van explodiu como se algo a tivesse atingido. Os estilhaços de metal e de pedra estraçalharam o vidro da frente do carro estourando também os pneus da frente. Filoctetes e Oliver só não se feriram por que a espada de Oliver sacou-se sozinha e converteu-se num enorme escudo romano. Á frente um tanque Leopard 1A5, de fabricação alemã bloqueava a rua, seu cano ainda fumarando pelo disparo. Em volta dele uma dúzia de soldados esqueletos, vestindo roupas esfarrapadas se preparavam para avançar. O primeiro que deu dois passos para além do tanque foi alvejado por uma flechada certeira. Jade já tinha aberto o teto solar da van e por ele disparava com seu arco retrátil – uma interessante peça da oficina de Hefesto. Quando fechado o arco era pouco maior que um estojo escolar, mas quando aberto ele tinha o mesmo tamanho e potência de um arco longo composto de caça.

A porta lateral se abriu e de lá Nathália saiu, espada e escudo em punho. Tão logo ela desceu da van foi atacada por três esqueletos, idênticos ao que Jade acabara de derrubar. De perto eram ainda mais feios que de longe e pior: se movimentavam com muito mais desenvoltura e agilidade. Estavam todos armados com facões, típicos da tropa de selva. Aliás, esse era o fardamento que eles usavam. O fardamento da topa de selva que lutou contra a guerrilha do Araguaia na década de 60. O primeiro veio com um golpe estranho, como se Nath fosse algum arbusto que ele precisasse cortar para continuar seu trajeto pela mata fechada. Tão rápido quanto veio o ataque veio sua resposta: ela desviou-se graciosamente para o lado, golpeado com a espada no pescoço exposto do esqueleto. O golpe soou seco, como quando um açougueiro corta um grande pedaço de osso buco com um cutelo e logo depois o esqueleto desmontou no chão, desfazendo-se em poucos segundos. Aproveitando o balanço do golpe ela acertou o segundo que vinha logo atrás e usou o corpo dele para se proteger do ataque do terceiro.

Oliver ainda estava com a cabeça zonza. Ele sabia que tinha de sair e combater, mas os braços simplesmente não acompanham os comandos da sua mente. Mova-se! Pensou ele, pouco antes de sair do banco, bem a tempo quando uma seta atingir bem onde ele estava sentado. Ele saiu cambaleando da van, espada em punho. Golpeou a esmo quando foi atacado pelos esqueletos. A cada golpe sua cabeça melhorava, ele conseguia ver com mais facilidade. Em pouco instantes estava tão ágil como poderia estar.

Em poucos segundos a emboscada estava desfeita e os inimigos de atacantes passaram a ser acuados. Mas mesmo acuados não pareciam que iam desistir tão fácil. A torre do canhão moveu-se novamente, corrigindo a distorção do primeiro disparo: desta vez atingiria em cheio a van destruindo tudo nela e em volta dela. Filoctetes gritou que os alunos se protegessem e ele mesmo tentou fazer o mesmo. Mas não parecia haver tempo hábil. Foi quando aconteceu.

No começo parecia ser apenas um leve tremor de solo, seguido por uma leve rachadura no asfalto, como se ele não suportasse o castigo das incontáveis toneladas do tanque. Mas era algo mais. Como um rugido selvagem e não natural os galhos verdes como ervas daninhas cresceram numa velocidade impressionante, cobrindo o tanque num primeiro momento. Segundos depois o tanque fora completamente coberto pelas vinhas verdades e as mesmas começaram a mudar de cor para um marrom grosso e forte. Num instante o tanque estava todo tomando, por uma mistura de trepadeira e gameleira, intrincada, como se tivesse crescido sem controle mais décadas. Os esqueletos que ainda não tinham sido alvejados por Jade e suas flechas certeiras correram em direção ao tanque, facões em punho tentando libertá-lo. Mas a cada golpe que davam, a cada galho que cortavam mais e mais galhos tomavam o seu lugar. Um deles foi simplesmente engolido pelos galhos e esmagado como se uma enorme cobra constritora esmagasse um cesto de vime. Num último esforço para se libertar o tanque disparou, mas o cano do canhão, retorcido pela força dos galhos, fez com que a munição explodisse ali mesmo. O tiro, literalmente, saíra pela culatra.

A explosão causou mal estar na tropa dos esqueletos. Muitos deles pareciam simplesmente terem sido desligados, como brinquedos de rádio controle que ficam longe demais de seus operadores. Alvos fáceis para campistas treinados. Mas sempre havia um golpe de sorte. E a vítima fora Filoctetes. Ela havia tropeçado sobre um galhos da enorme gameleira gigante e um esqueleto trespassou seu peito com a espada.

– Filoctetes! – gritou Nathália, abrindo caminho entre os esqueletos caídos para checar o amigo mentor. A situação não era nada boa. Ele já tinha a palidez da morte quando ela o alcançou. – Aguente firme Filoctetes. Eu tenho ambrosia aqui na minha mochila. Um gole e você vai ficar novo em folha.

– Não… – ele tossiu sangue para cima, emprestando cor a seu rosto por um instante – estas armas foram feitas para envenenar semi-deuses, mas parece que tem um efeito diferente sobre servos dos deuses, como eu. Saia daqui pequena. Guie seus amigos para longe. Você sempre foi valorosa. Leve-os e salve o Olimpo. Vá! – ele tossiu novamente e Nathália foi afastada pelas mãos de Oliver. Ela tremia, sabe-se de dor ou e ódio. Mais a frente Eric chamava a todos. Ao que parece a névoa não estava sendo o bastante para manter os mortais afastados e cedo ou tarde – mais para cedo – toda aquela área estaria cheia de pessoas. Cheio de pessoas significava cheio de inimigos. A contragosto Nath seguiu com os amigos, guiando-os através dos becos do setor militar urbano.

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