Os novos heróis do Olimpo: Capítulo 24

O jardim das delícias.

A viagem pela estrada seguia num bom ritmo. Se a estrada não era das melhores o carro da Giges era muito bom para aquele tipo de pista mal cuidada que apenas as rodovias brasileiras podem ser. Oliver estava na direção, sendo guiado pelos olhos atentos de Jade. Desde o evento com as caçadoras a filha da Apolo estava tensa, sempre a espera que a cada curva da estrada houvesse um grupo delas esperando para emboscá-las. O arco e sua alijava de flechas estava no banco da frente, em seu colo, prontos para ação.
No banco de trás, seguindo num silêncio sepulcral, estavam Nathália, Eric e Lucas. Lucas parecia ter achado uma boa posição para dormir, com a cara enfiada numa almofada feita com folhas aromáticas secas envolvidas numa velha camiseta do santuário. Eric tentava decifrar os segredos de uma revistinha de palavras cruzadas – o que o tinha deixado mais frustrado do que alegre nos últimos quilômetros. Mas a mais calada de todas era Nathália. Ela estava sentada reta no banco, entre os dois meninos, braços cruzados sobre o peito, respiração pesada e lenta. Seu semblante estava sério e seus olhos fechados davam a impressão de que ela estava mais incomodada do que relaxando. De certo modo ela lembrara a expressão de Shi-fu, do desenho kung fu panda antes de conseguir a “paz interior”.
Numa das viradas da estrada Oliver teve de pegar um trecho em obras, onde a buraqueira na pista era maior que a própria pista. Era como se dissesse: dirija devagar, nestes buracos têm algum asfalto. Depois de esquivar dos piores por uns dois quilômetros, Oliver caiu pesadamente num outro, maior e inescapável. O piso do carro bateu e todo o se interior sacudiu. Lucas fora arrancado de seu sono pelo solavanco do carro e a revista de Eric voou até o colo de Jade. Mas o que chamou a atenção de todos foi o gemido de Nathália. A sua face estava transfigurada de dor quando todos olharam para ela. Num instante ela se recompôs, assumindo a mesma pose de estátua de olhos fechados meditando, mas a máscara já havia caído. Ela estava sentindo muita dor naquela estrada.
– Oliver, pare o carro assim que achar uma sombra. – a ordem de Jade saiu límpida e inquestionável. No mesmo instante Oliver já procurava um lugar para estacionarem. Numa curva da pista acharam uma belíssima e frondosa jaqueira. Oliver deu sinal e estacionou.
– Eu estou bem não precisa parar por minha causa – protestou Nathália, sob o olhar repreensivo dos quatro amigos. – Sério gente, o solavanco só me pegou de mau jeito. Eu posso aguentar a estrada…
Jade pegou um termômetro da bolsa e enfiou na boca da amiga. Ela cruzou os braços de novo como uma menina birrenta contrariada por uma mãe zelosa numa loja de doces. Por fim o termômetro apitou, confirmando as suspeitas de Jade.
– Apesar de todos os nossos cuidados uma de suas feridas não parece estar a fim de cicatrizar. Você precisa de descanso. Um quarto, cama de verdade e roupas limpas. Sem isso você estará vulnerável por mais tempo que queremos ou precisamos. Oliver, passe para o banco do passageiro e Eric assume o volante. – ela olhou profundamente para o filho de Hermes antes de perguntar – Acha que pode nos guiar em boa velocidade sem tantos solavancos?
– High eye sir, quer dizer, mylady! – Eric parecia estra mais que feliz em ter o carro de novo sob seu controle. – vai parecer que estamos numa pista com asfalto e não fazendo um rally na superfície da Lua.
– Olive, esse seu tablet pode nos achar um bom lugar para pernoite? Nada caro e bem perto daqui. Pelo menos dois dias de estadia. – ela penou um pouco mais e acrescentou – esquece a parte do preço. Contanto que não seja o Ritz podemos pagar.
Oliver respondeu silenciosamente com a cabeça e começou a procurar. Como não recebera qualquer ordem Lucas voltou a cochilar. Eric aguardava os comandos de Oliver.
– Vamos lá navegador, seu cão preguiçoso. Faça valer a sua ração! Trace o curso para o porto seguro mais próxima, yarrr! – Eric soava como um bucaneiro saído de Piratas do Caribe.
Oliver olhou o frank por alguns segundos, passeou seus dedos pela tela e por fim determinou: – Segue reto pela estrada, até chegar a uma estrada de terra. Mais ou menos uns 20 km. Depois vira a esquerda em direção do Parque Terra Ronca. Lá tem um hotel estância chamado Jardim dos Prazeres. É bem cotado pelo guia on line de estradas. E o melhor, como fica longe de tudo e de todos não vamos precisar nos preocupar com homens de preto ou semideusas imortais de moto.
A viagem transcorreu com a precisão cirúrgica que apenas o talento ou a sorte podem promover. Mesmo o clima, que parecia estar se fechando novamente, não atrapalhou em nada. Oliver como navegador e Eric na direção eram uma dupla difícil de bater. Ao ver os dois juntos era de se esperar que conseguissem entrar e sair do labirinto da ilha de Creta antes de chamar a atenção do ilustre minotauro – desde que estivessem de posse de um tablete com acesso á internet. Em menos de duas horas de estrada estavam passando pela porteira de um hotel fazenda com o nome “Jardim das Delícias”. Passaram a porteira e seguiram por mais dez minutos, por uma estrada de terra batida, ladeada por cercas de arame farpado, divisando as duas metades de um enorme pasto, salpicado por centenas de mudas de plantas nativas. Passaram até por cima de uma ponte de madeira pouco acima de um rio de águas cristalinas.
Era um hotel fazenda temático, imitando as habitações árabes do período do alto califado. Era como se alguém tivesse arrancado um pedaço de Agraba, do desenho do Aladin, e tivesse dado vida ao cenário. Mas claro, com alguns toques que não remetiam à cultura árabe, como colunas gregas e fontes com pequenos e rechonchudos anjos carregando arcos com flechas cujas pontas lembravam corações.
– É cupido – exclamou Lucas – puxa, temos que avisar as filhas de Afrodite… se esse lugar tiver TV à cabo elas poderiam vir para cá na véspera do concurso de miss universo!
Intencional ou não a piada de Lucas provocou um rasgo na seriedade que tinha se instalado no grupo. A fazenda tinha cerca de 20 quartos e chalés temáticos em volta de uma grande casa – essa sim com jeitão de fazenda do interior de Goiás. Ao fundo via-se um estábulo muito bonito. Logo após a sede estendia-se uma ladeira descendo, dando passagem para várias piscinas, bares e quadras poliesportivas. Lá em baixo mesmo divisaram o que parecia ser um lago de pesque e pague. Haviam poucos carros ali estacionados. Jade supôs que o grosso do movimento se dava na época das férias escolares e nos finais de semana.
Ela desceu do carro, pedindo que Oliver o acompanhasse. Os dois foram até a recepção. Uma menina de no máximo 16 anos, pálida como cera de vela, estava ocupada com um celular nas mãos, jogando um joguinho estilo “pássaros descuidados.” Foi preciso que ela morresse umas duas vezes antes de notar a presença dos dois.
– Bem vindos ao hotel estância Jardim das Delícias. Vocês tem reserva?
– Tentamos, mas o site de vocês estava fora do ar – Oliver se adiantou. – Estamos em grupo, viajando pelo interior do país. Queremos estadia para cinco pessoas. Queremos chalés mais afastados porque queremos fugir da bagunça e do barulho.
– Claro, fiquem tranquilos. Se vieram em busca de fugir do barulho e da agitação da cidade grande vieram para o lugar certo. O nosso hotel é dos mais silenciosos – exceto no segundo domingo de cada mês, quando temos uma celebração especial. Hippies e wiccas vêm de todo o Brasil. É muito divertido, mas pode ser barulhento as vezes. Bem, fazem questão de ficar todos juntos?
– Não, mas os chalés têm de serem próximos um do outro. – respondeu Jade.
– Neste caso temos os 13 e 14. Vamos lá, eu vou mostrar as acomodações para vocês. A forma de pagamento será…
– À vista. Cartão. Pode anotar o meu nome – começou Oliver – Bernardo Stelle. Nasci em Roma, Itália – disse ele mostrando o passaporte italiano.
Os trâmites demoraram pouco e “Bernardo” deixou dois dias pagos antecipadamente, incluindo café da manha, almoço, jantar e dois passeios-surpresa. Ao voltarem para o carro encontraram Nathália dormindo pesadamente no colo de Eric. Ele tinha tomado a almofada de Lucas e tinha sentado no banco de trás, expulsando também o filho de Demeter para o banco da frente. A viajem até os chalés durou pouco tempo e em menos de meia hora estavam instalados.
Jade ficou instalando Nathália na sua cama, no charmoso chalé 13. Ela e jade ficariam lá, cada um com seu quarto. Oliver teria de dividir espaço com Eric e Lucas no outro chalé. Dois quartos e duas camas. Alguém teria de dormir no sofá. Depois de uma animada partida de dominó Oliver e Lucas ficaram com os quartos e Eric foi para o sofá. Não que fosse desconfortável – Eric já tinha dormido em lugares bem piores.
A chuva não deu trégua e emendou direto tarde adentro e noite a fora. Após o farto jantar foram todos para suas camas. Como suspeitavam mais cedo, a instância estava quase vazia. Fora eles apenas alguns turistas perdidos. Não juntaria gente o bastante para fazer uma partida de futebol de salão. As camas eram convidativas e o barulho da chuva, tamborilando sobre o teto dos chalés, fazia uma melodia monótona que trazia o sono com rapidez.
Eric estava quase pegando no sono. Como prêmio de consolação tinha recebi de cada amigo um travesseiro. Tinha dois e podia dispor deles para fazer o sofá ainda mais macio. Mas sempre que Eric dava uma fechada de olhos mais forte ele sentia que estava sendo observado. Por fim o sono o venceu, mesmo com a terrível sensação. Ele cochilou um sono leve, como apenas os filhos de Hermes podem ter. Foi quando ouviu. Poderia ser um sonho, por que não? Era um gemido, um sussurro… Uma súplica. Vinha não se sabe de onde. Era um pedido de ajuda. Misturada ao sonho de Eric, o pedido de ajuda se perdeu nas fantasias heroicas do rapaz. Sonhava ele em ter todas as lindas filhas de Afrodite a seus pés, enquanto heroicamente salvava o santuário dos homens de preto. Sonhava com mais tempo com o pai, ambos correndo sobre a planície de maratona, sem se preocupar. Sonhava em manter Oliver sempre como seu amigo; não pelo que seu pai lhe dissera na noite em que ele fora reclamado, mas porque sabia que Oliver seria mais que um amigo. Ele também sabia que aquilo que ele tinha de fazer era terrível. Rezava, desejava, que a amizade dos dois sobrevivesse a seus atos.
Por fim ele acordou, suado, o lençol enredado em suas pernas e um dos travesseiros jogado longe. Lá fora a chuva ainda tamborilava de leve e ele sentiu de novo a presença ruim. A janela da sala bateu com a força do vento e ele foi lá fechar. Podia jurar que tinha deixado aquela janela fechada. Ele olhou para o mundo do lado de fora do chalé: escuro e sinistro, com sombras bruxuleando pelas luzes dos postes, agitados pelo vento e a chuva fina. Foi quando ele ouviu o pedido de ajuda de novo. Era pungente, irresistível. Quase como o canto de uma sereia. “Uma pessoa precisa desesperadamente de ajuda” pensou ele. Quantas vezes não fora ele que estivera nas mesmas condições? Ele foi até a mochila, vestiu a camiseta com a imagem de Goku e Vegeta fazendo a dança da fusão, um moletom e saiu pela janela que acabara de fechar. A noite estava começando para valer.

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