Os novos heróis do Olimpo – Capítulo 27

Na terra do sol.

 

 

Era a manhã do segundo dia de viagem quando Eric divisou a placa que dizia em letras garrafais: “Bem vindo á Fortaleza – terra do Sol”. Poucas placas poderiam estar mais certas quanto à parte de seus ditos. Eles não sabiam ainda se seriam realmente bem vindos, mas a parte de terra do sol era mais que visível. Mesmo com o ar condicionado da caminhonete funcionando ao máximo o calor ainda era notadamente desconfortável.

A viagem tinha sido mais rápida do que a previsão mais otimista de qualquer um. Depois de deixar a estância vampira e seguir pelas estradas, o caminho teve incidentes mínimos. Assim como dissera Hécate, sua filha estava devidamente ambientada no mundo dos mortais modernos, mas muito de seus trejeitos ainda lembravam alguém que tinha sido criada por uma rica família do interior. Embora ela tenha se mostrado uma companhia agradável – e talentosa uma vez que cantava lindas cantigas enquanto costurava pacientemente as roupas rasgadas dos colegas – boa parte do grupo ainda a olhava como uma inimiga em potencial. Lucas se recusava a sentar do seu lado. Apenas Eric e Oliver a tratavam com respeito e carinho.

– Então essa é a primeira parada da profecia. O que vamos achar aqui? – perguntou Nathália, olhos fixos na estrada.

– Bem de acordo com as previsões de Jade – disse Oliver sem levantar os olhos do tablet – ou pelo menos as previsões que ela fez quando estava desacordada, Fortaleza é o ponto de partida.

– “Na terra do sol, no altar do deus da guerra que foi rendido à mãe do Salvador, o primeiro passo da jornada será dado. Sozinhos ou juntos, a chave deve ser localizada. O guardião da chave deve ser convencido a contar o segredo. Só assim sua jornada pode continuar”. – recitou Lucas, sob o olhar incomodado de Jade. Ela mesma jamais fora capaz de se lembrar desse seu momento pitonisa e achava tudo muito desconfortável. Ela era uma guerreira, no fim das contas. Não tinha tempo para previsões.

– Imagino de que tipo de chave estamos falando. – bufou Eric quando um ônibus urbano superlotado o cortou pela esquerda – Cara, o transito aqui é de lascar. Ô vovózinha, cê não tem seta no seu carro não é? Não tem ou não sabe usar? – O trânsito de Fortaleza só não era pior porque ele era um semideus e sua mente era preparada para batalhas. Caso contrário…

– Pode ser qualquer coisa – disse timidamente Isabel. Ela estava vestindo uma calça jeans empresada de Oliver, junto com uma camisa amarela e preta do santuário. Usava um par de chinelos de dedo cedidos por Eric e mantinha os cabelos amarrados com uma bandana da harley que tinha sido encontrada jogada no chão de um posto de gasolina – mas se os deuses forem parecidos com minha mãe, podemos esperar o inesperado.

– Esperar o inesperado? Não é a coisa mais elucidativa a se dizer – comentou inquisitivo Oliver, enquanto decidia onde poderiam tomar café da manhã. Mais cedo Jade havia lhe incumbido esta missão e ele pensava em alguma coisa regional. Já havia estado no Ceará e conhecia o básico da comida cearense. Por fim, deu as coordenadas para que Eric os levasse até a famosa Praça das tapiocas, em Messejana. O GPS dava as direções para o insuspeito endereço da Avenida Washington Soares, 10215. O lugar era realmente muito bonito. Tinha uma rusticidade típica das vilas do interior do estado, mas mesmo assim com um charme muito bacana. Sentaram-se numa mesa e começaram a comer. As tapiocas, como explicou Oliver entre uma mordida e outra, é o nome de uma iguaria tipicamente brasileira, feita com a fécula extraída da mandioca. O recheio varia, mas o mais tradicional é feito com coco e queijo coalho. Mas haviam mais de 150 tipos de recheio no cardápio. Comeram até que não sobrou qualquer espaço nos seus estômagos cheios.

– E agora que já estamos devidamente entupidos até o talo, temos que achar um lugar para dormir. Tenho certeza que o nosso navegador ali já achou um lugar bom o bastante. – Lucas olhava com expressão de sono como se tantas tapiocas funcionassem como um tranquilizante.

– A bem da verdade eu tenho. Fortaleza é famosa por seus hotéis de luxo, especialmente na Avenida Beira-mar e na região da Praia do Náutico. Eu já experimentei alguns deles com o meu tio – uma sombra passou pelo rosto de Oliver ao lembrar-se do tio que continuava desaparecido – mas todos são realmente movimentados. Um grupo de moleques chamaria atenção demais. Eu penso que podemos ficar num dos hotéis mais baratinhos do centro velho, aquelas que se parecem pensões. Elas hospedam muitos estudantes. Na região da praça em frente da Justiça Federal é um bom lugar para começarmos a procurar. Podemos deixar o carro perto da delegacia. É mais seguro do que procurar um estacionamento pago.

– E como é que você ficou expert na geografia do centro de Fortaleza de uma hora para outra? – perguntou incrédula Nathália que terminara de arrotar sonoramente, enchendo sua boca com o perfume da última tapioca de carne seca que engoliu.

– Eu venho estudando os mapas da cidade e dicas de internautas desde que passamos pela fronteira do Estado. – disse Oliver, sem falsa modéstia – eu não sei como explica, mas quanto mais eu estudo é como se eu já tivesse vivido ali.

– Ok. Vamos supor que consigamos um hotel ali nas proximidades da Justiça Eleitoral do Ceará. E de lá, para onde vamos? – Eric parecia mais ocupado com uma garrafa de molho de pimenta e um pedaço de tapioca com doce de leite, chocolate e canela do que na conversa.

– Eu jamais pensei que diria isso, mas vamos nos separar e procurar – disse Jade soturnamente – a profecia diz: “Na terra do sol, no altar do deus da guerra que foi rendido à mãe do Salvador, o primeiro passo da jornada será dado. Sozinhos ou juntos, a chave deve ser localizada”. Sozinhos ou juntos – ela enfatizou de novo esta parte como se não gostasse nada dela.

– Eu também não concordo com o método “scooby gang” de fazer as coisas, mas acho que é a única coisa que podemos fazer agora. Vamos nos registrar num hotel pensão no centro, e conseguir alguns telefones para ficarmos em contato. – Oliver falou enquanto se levantava da mesa.

Foi pouco mais de uma hora e meia de Messejana até o centro. O transito de Fortaleza era absolutamente caótico. Mesmo um GPS como o frank tinha dificuldades de achar o trajeto até o hotel. Escolheram por fim um hotel/motel/pensão no centro. Os quartos eram todos de casal, mas poderiam ter uma cama de solteiro a mais por um custo. Um dos quartos ficou com Jade, Nathália e Isabel e no outro Lucas, Oliver e Eric. O hotel era adaptado numa casa antiga, de dois andares. A dona, uma senhora negra que atendia pelo nome de Zulmira mantinha tudo muito limpo e organizado. A sala da recepção era o próprio sincretismo religioso em pessoa: carrancas dividiam espaço com imagens de gesso de santos locais, como o Padre Cícero e Frei Damião, junto com uma imagem de madeira pintada Ogum e um sapinho da sorte (kero-kero).

Após se registrarem resolveram dar um volta pelas redondezas. O conhecimento dos mapas de Oliver não adiantaria de nada para eles se não conseguissem se localizar sozinhos.

Antes de sair para a sua busca Nathália arrancou um galho de um pé de juazeiro que crescia na frente da pensão. Fechou os olhos e jogou o galho para cima: ela resolveu caminhar para a direção que o galho apontara. Acabou caminhando sozinha até chegar ao Passeio Público de Fortaleza.

Segundo seu recém-adquirido celular, um robusto blackberry de teclado escuro, o passeio público, também conhecido como “praça dos mártires” era a praça mais antiga de Fortaleza. A praça, como a cidade em si tinha muita história: ali houve a execução dos membros da houve a execução dos revolucionários da Confederação do Equador: Azevedo Bolão, Feliciano Carapinima, Francisco Ibiapina, Padre Mororó e Pessoa Anta. Ali também houve a primeira partida de futebol do estado disputadas por marinheiros de navios ancorados no porto da cidade, ingleses residentes em Fortaleza e cearenses da classe alta. A praça passou por uns mal bocados, sendo famoso ponto de prostituição e tráfico de drogas até o final de 2007 quando ganhou uma revitalização. Agora, segundo o site que visitava era um point cultural, um mar de silêncio na cacofonia barulhenta do centro da metrópole.

Ela chegou a praça e viu que não podia confiar em todo o que se dizia na internet, a praça era bonita sim e tinha realmente jeito de que tinha sido reformada. A vista para o mar entardecendo era tudo o que prometia uma cidade que se chamava de terra do sol, mas a sujeira e o toque da depravação avançavam sorrateiramente. Logo percebeu um grupo de “mauricinhos” trocando drogas e algumas prostitutas mirins aliciando turistas incautos. Ela se sentou e resolveu esperar um pouco. Logo ela viu um senhor de idade se aproximando. Ele usava um uniforme antigo do exercito, desses que os pracinhas remanescentes da FEB usam nos desfiles de sete de setembro. Ele tinha bastante idade, mas ainda andava reto, amparado por uma bengala de madeira grossa. Na cabeça um gorro francês – provavelmente uma relíquia de guerra trocada com algum soldado aliado no front. Ela imaginou se um dia viveria tanto assim.

Foi quando ela viu. Quatro rapazes cercaram o veterano. Exigiam dinheiro. O velho os ignorou e seguiu seu caminho. Um dos rapazes o agarrou pelo ombro e levou uma bangalada tão rápida entre os olhos e o nariz que Nathália mal pode perceber, mas pelo som não foi apenas veloz, foi bem forte. O rapaz deu dois passos para trás e a sua imagem tremeluziu. A névoa se dissipou por um instante e Nathália viu que não eram pessoas comuns. Pareciam algum tipo de ciclope em miniatura. Quer dizer, miniatura para ciclopes que costumam ser gigantes corpulentos, mas para humanos normais pareciam quatro adeptos do fisiculturismo. Como era mesmo o termo que Karina usava, quando assistiam lutas de MMA na TV? Pityboys.

O soldado veterano estava cercado. Ele conseguiu se desviar de uma segunda tentativa de agarrada, mas um soco bem colocado o jogou ao chão. Um dos lutadores tentou aplicar-lhe um pisão, mas o veterano conseguiu rolar para debaixo de um banco. Um dos ciclopes arrancou o banco do lugar e o ergueu para golpear o homem. Foi quando uma adaga de bronze celestial o atingiu bem no meio do olho.

É engraçado como monstros mitológicos morrem. Alguns viram pedra e depois se espatifam no chão como se fossem estátuas; outros viram um punhado de pó e outros, ainda mais perigosos, explodem. Esse ciclope virou um monte de água com cor de isotônico de laranja e espatifou-se pelo chão, a adaga caindo junto e fazendo um baque metálico ao se chocar com o piso de pedra.

Os demais se viraram a tempo de encarar Nathália com seu gládio romano nas mãos, berrando um grito de guerra. Na sua primeira passada exterminou uma das criaturas, que caiu ao solo como um monte de isotônico cor de uva. Um deles resolveu correr, afinal dois de seus amigos já tinham sido despachados e o outro, amaldiçoado por não ter a mesma perspicácia, sacou uma faca do bolso e começou a combater.

Ele era bom. Acostumado com as batalhas. Lutava com desenvoltura e certa técnica, embora confiasse demais na força bruta e na aparência. Nathália não teve problemas para derrota-lo depois de uma sequencia de chutes bem colocados e uma estocada com a espada na altura do pescoço.

– Bravo, bravo! A solidariedade do soldado posta à prova contra uma força superior. O santuário ensinou bem a você, minha pequena.

A espinha de Natália gelou. Ela conhecia aquela voz. Aquela era a voz de Ares, o deus da guerra. A voz do seu pai.

 

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