Magias divinas para descrentes no D&D 5a. edição

Se um Personagem diz não acreditar nos Deuses (é um Bárbaro), a magia divina deveria falhar nele (no caso, quando for para beneficia-lo, é claro)?

Aqui temos uma interessante questão sobre ética. Uma deusa deve conceder seu dom da Cura a um clérigo, para que este cure uma pessoa que é descrente da deusa?

Antes de responder essa pergunta devemos deixar claro que não existem dúvidas no D&D sobre a existência dos Deuses. Mesmo em cenários onde os deuses não existem mais (como é o caso de Darksun), todo mundo sabe que eles JÁ existiram. Você pode achar que o seu Deus é mais poderoso que o Deus do coleguinha de grupo, mas não há como duvidar da existência dos Deuses.  Isso porque neste caso a existência dos Deuses não é subjetiva; ela é amplamente objetiva. Em mundos como  Forgotten Realms, Tormenta, entre outros é razoavelmente comum esbarrar com deuses e seus avatares no meio da rua!

Nos cenários de D&D deuses não são questões de crença. Eles existem. Tão certo quanto a lei da gravidade funciona. Você não precisa acreditar na lei da gravidade, mas ela existe e funciona! Se você duvidar da gravidade e ainda assim pular de um precipício, você vai morrer. Com os deuses em D&D não é diferente. Você não precisara acreditar em Vecna para que a magia inflingir ferimentos graves funcione em você.  Da mesma forma as noções de bom e mal, o certo e o errado não são noções puramente metafísicas. Elas são questões reais uma vez que existem magias que lidam diretamente com esses aspectos, como, por exemplo, o círculo de proteção contra o mal.

Qualquer magia de cura também afeta animais. E animais não são conhecidos por sua crença em deuses. Em D&D o fato do personagem não acreditar na existência de deuses é praticamente igual ao personagem ser louco. A magia não deixa de funcionar em alguém apenas porque esse alguém é louco. Há de se considerar também que os clérigos e paladinos confiam nos desígnios de seus deuses. “O senhor da luz escreve certo por linhas tortas”. E considera-se que o contrário também é verdadeiro: um deus deve confiar no julgamento dos seus clérigos e paladinos; se ele para de confiar, ele tira o poder deles.

Não acho que o deus vai ficar de babá concedendo ou não poder de acordo com o que ele acha correto que o paladino faça. É estranho ser ateu em um mundo politeísta em que existe magia divina? Muito, mas o efeito mágico não tem nada a ver com isso. Dentro estritamente de uma visão de regras a magia vai funcionar porque depende tão somente do clérigo ainda ter magias de cura para lançar e esteja em condições de afetar o alvo da magia.

Entretanto os mundos de fantasia exigem mais do que simples regras.

Então, é praticamente inverossímil que um Bárbaro, que tem sua origem basicamente em culturas tribais com fortes laços religiosos, não creia em divindades. Ele poderia aceitar que a deusa do clérigo é uma deusa fraca porque não é aqui sua tribo segue, mas não poderia dizer que os deuses não existem. Ou melhor, ele poderia, num ato de extrema teimosia.

Nada impede a existência de ateus ou agnósticos dependendo do cenário. Mas supondo que os deuses no contexto do cenário existem como fato, mesmo assim seria muito difícil defender uma divindade como benevolente se ela se recusar a deixar o clérigo curar alguém por “Não acredita nela”. Isso seria a divindade supostamente bondosa literalmente deixando alguém morrer por orgulho barato, coisa que até mortais superam. É aí que mora a contradição, é impossível uma divindade se dizer benevolente negando ajuda aos necessitados por vaidade.

Lembrando que deuses não precisam seguir normas humanas e nem lógicas mortais. Basta lembrar-se dos desuses gregos que são praticamente crianças mimadas com todo poder do universo na ponta das mãos.

O Bárbaro poderia ter por opinião que não existem deuses e que o Clérigo está enganado sobre a origem de seus poderes. Afinal, um mago estuda magias, um Bardo canta suas magias por que um Clérigo deveria ter que ter seus poderes de uma criatura sobrenatural super poderosa? Bem é uma opinião bem sofisticada para um “Bárbaro”, mas vamos deixar que continue assim. Assim sendo até para mostrar que existe e que o Bárbaro está errado os poderes de cura da deusa funcionariam.

Mas e se mesmo assim o personagem não se convencer? Pode ser que a situação apenas fortaleça sua crença de que deuses não existem e que os poderem vêm, de fato, do Clérigo. Pode ser que a deusa do Clérigo tenha mais o que fazer do que provar sua existência para um descrente teimoso. Ou pode ser que depois de algumas discussões ela ache que o descrente merece uma “lição”.

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Uma opção é que quando o Clérigo for curar o Bárbaro a magia não funcione nele, mas cure todos os colegas em volta de forma espetacular: curando doenças, regenerando membros perdidos, removendo maldições… deixando claro que é um poder muito maior do que o Clérigo poderia manifestar. Mas mesmo assim pode ser que o teimoso Bárbaro ainda ache que Deuses não existem.

No fim das contas, mecanicamente nada impede que o Clérigo cure o Bárbaro descrente. Nada impede da deusa “dar de ombros” e aguardar o momento certo para se revelar ao personagem. Pode ser em sonho, ou mesmo na eventual ressurreição deste personagem.

Sabendo aproveitar, até mesmo uma teimosia como esta é uma boa forma de desenvolver a história.

2 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Julio Barboza Chiquetto
    jan 15, 2018 @ 13:57:33

    Caramba, que post legal Beto! Sai de uma discussão meio equivocada (da pessoa achar que a crença do seu personagem seria suficiente para conferir imunidade ao poder dos deuses) e evolui para diferentes ideias de plots aproveitando esse gancho e essas questões…parabéns cara!!!
    ps: posso publicar esse post num grupo do facebook? Se chama “Pensando Dungeons & Dragons”

  2. valberto
    jan 15, 2018 @ 13:59:03

    Cara fique muito à vontade para colocar esse texto para quem você quiser. Que bom que ele ajudou você.

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