Por que eu não jogo GURPS?

Por que eu não jogo GURPS?

Essa é uma pergunta recorrente em muitos fóruns de rpg, especialmente no facebook, onde o GURPS tem uma pequena, mas barulhenta fanbase. Hoje eu vi mais uma dessas postagens “this is bait” sobre o assunto que servem apenas para movimentar a comunidade e trazer á tona a nata da imbecilidade rpgística do Brasil, com argumentos como:

E tem mais: não quer perder 15 a 30 min numa ficha?! Tranquilo! Talvez R.P.G. de mesa não seja para você! Talvez GTA ou LOL sejam melhores opções, pois aí é só escolher o nome e entrar numa realidade preconcebida com tudo pronto pra vc fazer tudo no automático e não precisar pensar 🤣🤣🤣.

Não gosta de GURPS? Quantos sistemas você já jogou?

Pq maluco tem preguiça de ler e ter q pensar pra fazer uma ficha, estão acostumados em pegar ficha combada pronta pra jogar DeD.

Daí, eu me sinto na obrigação de dar um “raise dead” neste blog para explicar porque eu não gosto de GURPS.

A primeira coisa é que o a construção de personagens é muito demorada. Mesmo para quem conhece o livro de rabo a cabo demora uma eternidade. De verdade. Mesmo com um aplicativo demora cerca de 15 minutos para a idéia “mago recém saído da academia em busca de aventuras e poder” ganhar uma ficha completa.

Segundo: GURPS é um playground para combeiros de plantão. Lembro que das últimas vezes que joguei GURPS fantasia (antes do bug do milênio) um cara tinha montado um mago que soltava bolas de fogo de 3d6 de dano à vontade, sem gastar energia ou nada. Isso porque estávamos com heróis plenos de 150 pontos, mas eu já ouvi lendas de gente que altera a realidade com 100 pontos.

Terceiro: os livros são feios. Eu poderia dizer que são esteticamente pobres, mas ainda assim eu estaria mentindo. Os livros são feios de doer nos dentes. Os livros de GURPS são mais feios que bater na mãe. A diagramação gigante, o livro todo no Times new roman itálico e negrito para cima e para baixo com milhares de colunas perdidas… E a capa? Uma cabeçorra roxa e depois uma cabeçorra com uma maga, um punk e um armored trooper em bolhas de sabão. As  ilustrações em preto e branco não ajudam também. Dá preguiça de abrir…

“Ain Betão, você está falando das edições antigas… os novos livros…” têm capas feias também e o miolo não é muito melhor não. Falando sério, tem muito material “home brew” de D&D e Pathfinder que põe os livros do GURPS no chinelo. Fica complicado defender um livro feito por uma empresa com décadas de experiência que é derrotada por um moleque ranhento com um adobe ilustrator e meia dúzias de fontes baixadas da internet.

“Ain Betão e tu compra livro para ver as figurinhas? O conteúdo é o que importa. E nisso os livros são imbatíveis…” Olha, colega, se design e aparência não servissem para nada ninguém embrulhava presentes e as empresas não gastariam milhões por ano dando formas melhores à seus produtos. Isso é design e o do GURPS é ruim. Aceite isso.

Quarto: Não tem um cenário forte. Tem um monte de ferramentas para você montar o seu próprio cenário, mas não tem um cenário que brilhe aos olhos. Não tem um Arton, nem Al-qadin, Kara-tur,  Forgotten Realms, Rokugan, Eerron e mais recentemente Wildemount (vindo diretamente das mesas online do critical role). Falta  ao GURPS esse “pano de fundo”.

Cinco: Mesmo sendo um jogo voltado para o Sand Box, GURPS acaba sobrecarregando o narrador com muito mais coisa do que ele deveria ter que pensar. Mesmo quando você monta tudo sempre fica algo faltando, algo sem uma boa explicação, algo sem… sei lá.

Seis: mesmo usando as regras cinematográficas, GURPS é um jogo muito mortal e pode ser frustrante quando você quer apenas um herói épico e não uma coisa “mais real que a realidade”. Recordo de um cara que montou um mago halfling. Levamos a tarde inteira fazendo os personagens. E ele morreu para o primeiro Hobgoblin com um machado. Ele morreu no primeiro golpe. É uma frustração sem fim.

Sete: O fanbase é de doer. Toda fanbase é meio tóxica, mas a do GURPS meio que se destaca. Onde é que estava toda essa galera que adorava o sistema, que joga toda semana, e o caralho a quatro quando o jogo foi cancelado no Brasil?

Ok essa foi a minha lista. Era isso. Até quando der vontade de novo.

5 Comentários (+adicionar seu?)

  1. rsemente
    mar 17, 2021 @ 13:54:43

    Bem interessante sua analise. Concordo quanto os aspectos físicos do jogo, e um cenário realmente bom e coeso faz falta.

    Sobre as regras, sobre o ‘realismo’, as vezes é o que o mestre e os jogadores querem. Um cenário e mundo hardcore, que o cara pode ter 1000 pontos, mas se der mole pode morrer mesmo.

    Mas a cena que o mestre matou o personagem na primeira sessão é foda, mas isso pode ocorrer até em D&D, quem nunca viu um TPK na primeira sessão, onde um orc dá o critico no guerreiro, tira seus 14 pvs, e o mago dá só 2 de dano com seu misseis mágicos e leva uma espadada que tira seus 6pvs, e o ladrão sai correndo!

    Então, tanto no D&D quanto no GURPS, todos tem que estar de acordo com as regras para a diversão, e principalmente o mestre tem que ter bom senso pra que o jogo continue. Se o mestre diz “é um jogo realista, cuidado” e na primeira cena o cara se mete com o chefão da cidade, esta pedindo pra morrer. Mas precisa ter um acordo prévio do que o mestre quer e do que os jogadores querem…

    No mais, parabéns, e bom artigo.

  2. valberto
    mar 18, 2021 @ 11:03:52

    Concordo que algumas coisas são comuns a todos sistemas… Tpk é uma delas…

  3. Mike Wevanne
    mar 18, 2021 @ 14:32:21

    Eu adoro GURPS, mas só posso concordar com o que foi exposto.

    PRINCIPALMENTE o sétimo item. O foi a fanbase que me afastou totalmente do jogo, quando eu tentei fazer uma última tentativa de jogar GURPS (on-line), me deparei com fichas combadas que desmotivaram total. Parece que essa galera vive em alguma das realidades alternativas de Infinite Worlds, hehehe!

    Por falar em Infinite Worlds, o jogo até tem ambientações muito interessantes, como Reign of Steel, Infinite Worlds, Banestorm, etc. Infelizmente nunca ganharam holofote suficiente para se destacar no acervo da SJ Games e acabou que o jogo se destaca só pelos seus manuais de referência.

    Talvez com o atual advento dos jogos solo eu considere voltar a jogar GURPS. Talvez.

  4. Xikowisk
    maio 31, 2021 @ 03:25:24

    Só não entendi o que mudou de janeiro de 2007, quando você escreveu “Como a Dragão Brasil matou o GURPS no Brasil”, até aqui. Na matéria parecia defensor do sistema. O que aconteceu?

  5. valberto
    maio 31, 2021 @ 09:17:58

    Não mudou. Em 2007, 14 anos atrás, o cenário do RPG era outro. Não via tantos os problemas que eu citei.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: