Os novos heróis do Olimpo – Capítulo 15

A profecia

O conselho fora reunido de emergência. Todos reunidos no prédio central da administração, um lugar que por fora parecia um prédio ou fórum romano. Doze colunas de mármore branco ladeavam a fachada principal. As colunas deveriam ter uns 13 metros cada, sustentando uma fachada triangular, ricamente decorada com adornos e figuras mitológicas.

Lá dentro, numa espécie de auditório misturado com anfiteatro o conselho estava reunido. Alguns estavam vestidos de pijamas, e outros com roupas às avessas. O sono estava temporariamente afastado deles pela gravidade da situação: primeiro os novatos, depois o ataque durante um treinamento e agora a situação inédita: Zeus preso pela própria lei.

Dezan estava com uma camiseta da última turnê do One Direction no Brasil. Todo o chalé tinha ido e ele não poderia ter ficado de fora. Compunha o resto da usa imagem um cabelo um pouco assanhado, uma bermuda cor de caqui e chinelos tipo havaiana. Ele começou a falar:

– Bom, pelo que sabemos a situação é esta: O sr. Zeus atacou sua filha, a deusa das estrelas, a sra. Astréia. O sr. Hermes, temendo o pior, invocou o édito de Zeus. – ele olhou fixamente para Oliver e Eric e falou com profundidade – para quem não sabe o Édito é um conjunto de leis criadas por Zeus para manter a ordem no Olimpo. Uma de suas normas é que “nenhum deus levantará a mão contra o outro ou organizará guerra um contra o outro, sob pena de encarceramento no na prisão do olimpo” – ele continuou ainda mais solene – “uma prisão que só pode ser aberta por Zeus e pelo lado de fora”.

– É como se fosse um erro de programação – interveio uma menina de cabelos escuros, amarrados no alto da cabeça num penteado antigo e uma camisa vermelha muito grande para ela escrito “bazinga” – obviamente quando criou o Édito, Zeus não esperava ser réu de sua própria criação. Não sei se existe uma porta dos fundos ou uma brecha jurídica celestial neste caso, mas no momento a situação é que Zeus, o líder do Olimpo está encarcerado. O Olimpo está sem um líder. O édito continua valendo ou os outros deuses já teriam entrado em guerra por seu posto – ela olhou longamente para Nathália, a única vestida com armadura completa e pronta para ação – mas se os inimigos souberem que os deuses estão sem seu líder, eles podem tentar atacar o Olimpo. Temo que seu os poderes ou a liderança de Zeus, nem mesmo os outros deuses seriam capazes de vencer.

– E o que podemos fazer Eugênia? Ficar sentados esperando? – Era um senhor magro, alto, cabelos negros espessos, cavanhaque e bigodes escuros.

– Não mesmo Filoctetes! – Nathália respondeu com vigor – quero levar a luta de volta aos nossos inimigos e libertar o senhor Zeus. Quatro dos meus irmãos foram mortos hoje. Sem falar dos feridos. Atena, Hermes e Afrodite também tiveram baixas! Não querem vingar seus irmãos e irmãs? Não querem salvar Zeus?

– Não podemos simplesmente sair por aí combatendo sem rumo. Temos de descobrir primeiro como salvar Zeus, depois podemos pensar em descobrir quem nos atacou. Mas duvido que um problema fique longe do outro por muito tempo – a Eugênia falou de novo, enquanto fazia e desfazia o cabelo na frente de um espelho de prata polida. – Acho que devemos trazer o Oráculo para cá. Ela deve nos dar uma ideia do que fazer.

– Ela já foi chamada – Dezan respondeu secamente – eu mandei dois lanceiros escolta-la em segurança até aqui.

Eric estava ainda atônito. Tudo era novidade para ele. A conversa com o pai não estava sendo de muita ajuda, embora estivesse acontecendo exatamente como ele disse. Logo ia chegar a hora de fazer a sua jogada. Uma jogada ensaiada. “É como um golpe. Para funcionar precisa de duas pessoas. Você vai ser meu parceiro nesta – não me decepcione”. Será que ele teria coragem para fazer? As palavras de Hermes ainda queimavam na sua mente quando ele tomou ciência de que Oliver estava ao seu lado, mas completamente em choque. Ele respirava lento e pesado, como se estivesse em transe. Tinha o olhar longo e perdido. Era informação demais, mesmo para ele.

Não demorou muito as portas do salão foram abertas e dois lanceiros entraram apressados trazendo com eles uma senhora. Se era uma oráculo, provavelmente era filha de Apolo, ou pelo menos passaria com tranquilidade por uma filha de Apolo: loira, cabelos encaracolados, pele bronzeada e um porte que já foi atlético, embora Eric suspeitasse que se ela quisesse poderia fazer os 400 metros com barreiras melhor que alguns medalhistas olímpicos. Tinha um jeitão de “tia”. Ela passou rapidamente por todos, dando um único e lacônico “boa noite” como se dissesse realmente: vamos acabar logo com isso.

Ela andou sem cerimônia até uma poltrona larga do outro lado da sala, puxou uma carteira de cigarros Belmont da bolsa e acendeu um na vela acesa no castiçal ao seu lado. Deu uma tragada longa que consumiu metade do cigarro de uma única tacada! Depois ela soprou a fumaça para cima. A fumaça concentrou-se em cima dela como uma nuvem de chuva e foi ficando cada vez mais escura a medida que descia em direção à sua cabeça. Finalmente a nuvem de fumaça negra cobriu seu rosto e ela começou a dançar. A máscara de fumaça não a abandonava, não importava que movimentos ela fizesse. Sua dança era impressionante. Até que ela parou bruscamente e começou a falar:

– Cinco são eles: um traidor, um marcado para morrer, um que vai se sacrificar e dois fadados à maldição de Afrodite. A marca brilhante em suas peles marcará os escolhidos, mas não salvará suas almas. Onde a terra toca o Olimpo, onde o fogo queima silencioso, a batalha final pelo mapa da casa dos deuses será travada. Libertem Zeus ou sofram o fado…

Sua voz era sobrenatural, cavernosa. Seus olhos brilhavam vermelhos e dourados por trás da máscara de fumaça. Seu corpo se contorceu e a fumaça elevou-se normalmente, dissipando-se no ar. Ela caiu sem forças, aparada por Filoctetes.

– Uma profecia. Grande! – exclamou uma menina gorda, sentada com uma camiseta preta com os escritos seashepherd.org. Ela se ajeitou na cadeira, puxou do bolso algumas sementes de goiaba e catou uma delicadamente. Ela colocou a semente na mesa e apertou com o dedo indicador da mão direita. Num segundo a semente virou uma flor e depois um fruto de goiaba, casca fina e amarelada. Em questão de segundos estava maior que uma bola de baseball. Ela pegou a goiaba e partiu um quatro pedaços. O cheiro da fruta invadiu o salão, expulsando de vez o fedor do cigarro. Ela mordeu um dos pedaços com tanta satisfação que até algumas gotas de suco escorreram por suas bochechas. Até Eric que não era muito chegado a frutas quis dar uma mordida. – temos de mandar cinco pessoas, cinco de nós, numa busca. Sabendo que um de dos que vamos mandar será um traidor. Esse time está fadado ao fracasso. E aliás, o que é que vão buscar?

– Está na cara, Amanda… você não ouviu a parte do “pelo mapa da casa dos deuses”. O mapa de uma casa é a sua planta estrutural. E a casa dos deuses só pode ser o Olimpo. Então o que eles vão buscar é a planta estrutural do Olimpo. – Dezan empertigou-se na cadeira depois de abrir uma latinha de muppy. Então ele olhou demoradamente para Eugenia e perguntou: Existe mesmo esse tipo de coisa Eugênia? Se existe uma planta a sua mãe, que é a deusa dos arquitetos deve saber alguma coisa. O que o chalé de Atena diz sobre essa planta e a sua localização?

Eugênia ficou pálida por um instante. Sentiu falar o seu ar. Depois seu rosto irrompeu em cor avermelhada. Ela desviou o olhar das pessoas da sala – todos a fitavam em busca de resposta – Eu não sei de nada disso. Nunca ouvi falar de nada disso.

– Não estamos falando “disso” e sim do “Pergaminho Áureo”. Logo após a primeira titanomaquia Zeus determinou que uma casa inexpugnável fosse construída. Indestrutível, como uma caixa forte e agradável como os campos elísios. Ele deixou a construção a cargo de deuses e semideuses. Um filho de Atena, chamado Pathos Verdes I, ficou incumbido da missão. Ele recebeu a ajuda de outros semideuses e alguns deuses. Ao final de sua construção, já meio louco pelo hercúleo trabalho, Pathos escondeu os planos para o Olimpo num lugar distante. Estes planos, que ele chamou de “Pergaminho Áureo” tem todos os segredos do Olimpo. Entradas secretas, salas que ninguém mais conhece, o segredo para entrar e sair de qualquer lugar. Mesmo da prisão de Zeus. – Quando Oliver terminou de falar todos o olharam com uma expressão de espanto – Os deuses que o ajudaram foram Hermes, Demeter, Astréia, Ares e Apolo. A cada um destes deuses foi dado a parte de uma chave para abrir o santuário onde o pergaminho fica escondido. – Oliver parou de falar e ficou se perguntando de onde vinha aquela informação toda. Seria uma benção de sua mãe? Seria alguém falando por ele? Era coisa demais para pensar.

– Então precisamos de cinco heróis escolhidos para buscar um pergaminho perdido, que nem os deuses sabem onde está, para poder libertar Zeus e impedir uma possível guerra civil entre os deuses ou ainda pior, uma invasão do Olimpo por conta de nossos inimigos. É isso? E eu que achava que as coisas aqui no acampamento estavam começando a ficar chatas. – falou Filoctetes, ao se levantar da cadeira e se espreguiçar longamente. Por um instante ele pareceu bem mais velho do que aparentava.

– Com licença, senhor, mas o chamaram de Filoctetes. Está correto? – Eric perguntou.

– Sim, eu mesmo – respondeu confiante o herói – por mando de Zeus eu treino e mantenho todos na linha aqui no Santuário.

– O senhor é o mesmo Filoctetes, ex-companheiro de armas de Hércules, que depois da morte do herói guardou suas cinzas e suas armas para que não caísse nas mãos dos inimigos – insistiu Eric.

– Sim, sou eu mesmo.

– O senhor não deveria ser meio bode?

A expressão de Filoctetes passou da serenidade para a raiva em milésimos de segundo. Ele agarrou uma taça de cobre que estava sobre a mesa e a esmagou imediatamente, deixando parte do seu conteúdo espirrar no chão. Ele olhou para Eric com uma expressão digna de um assassinato, virou de costas e saiu bufando alguma coisa sobre mijar no túmulo de Walt Disney.

Assim que ele saiu da sala todo mundo começou a rir. Nathália chegou a dar um tapão nas costas de Eric antes de se dobrar rindo. Dezan limpou as lágrimas do rosto antes de continuar a falar.

– Como é que vamos identificar estes heróis?

– A profecia fala alguma coisa de marca. – Amanda abocanhou mais duas goiabas e uma pera antes de continuar – Não fala?

– “A marca brilhante em suas peles marcará os escolhidos” – recitou Eugênia. Tatuagens que brilham no escuro?

Oliver e Eric se entreolharam, explodindo em cumplicidade. Tatuagens mágicas, que brilham e dão poderes extras. Coisa que os dois conheciam bem. Justamente por isso ficaram com medo e se afundaram e suas poltronas.

– Eu sei de pelo menos um deles – disse Nathália – Conheço pelo menos uma pessoa que se encaixa nesta descrição. – Eric e Oliver se entreolharam de novo enquanto ela andou calmamente até o centro do salão e começou a despir o peitoral da armadura. A peça de couro e bronze bateu com um som seco no chão. Por baixo a camisa do acampamento. Ela a retirou também, deixando apenas um pequeno top a cobrir a parte superior de seu peito. Mas nas suas costas, lá estava: Uma lança grega, ponta voltada para cima, adornada pelo que ela mesma chamou de “o Dragão de Tebas”. – Eu sou a primeira heroína da profecia. Vamos, temos de achar os outros.

Contagiados ou intimados pela coragem de Nathália, Oliver e Eric demonstraram suas tatuagens. Três dos cinco já haviam sido encontrados.

 

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Os novos heróis do Olimpo – Capítulo 14

Barracos de Família

Ninguém tinha entendido nada. Pouca gente sabia quem era Astréia e mesmo os filhos de Atena, reconhecidos CDFs ainda estavam especulando se aquela era realmente a deusa das estrelas. “Mas a última vez que ela deu as caras foi ainda na guerra da titanomaquia”, “Ouvi dizer que ela se refugiou nas estrelas por que viu o futuro negro da humanidade e ficou com pena de nós”, “Esse deve ser o primeiro filho reconhecido dela em eras”, “Uai, onde é que ele vai ficar? Não tem chalé de Astréia…” foram alguns dos comentários que os grupos de campistas reunidos teceram quando os dois, Oliver e sua mãe, saíram em direção a área dos chalés.

Andaram em silêncio até que fizeram a curva em direção a área dos chalés. Ali, Astréia diminuiu seu brilho. Ela estava iluminada como uma árvore de natal, com quase três metros de altura, em toda sua glória e esplendor. Provavelmente seria o que os humanos chamam de roupa para impressionar. Aos poucos ela foi diminuindo, tanto de tamanho como de brilho. As roupas também mudaram, saindo do “toga grega” para a “mulher madura descolada do século XXI”: um vestidinho escuro, com motivos de estrelas, folgado, brincos em forma de lua nova e maquiagem leve. Sapatos pretos, femininos, combinavam com as pernas longas e brancas. Uma hora ela parou, olhou Oliver no fundo dos olhos deu-lhe um abraço longo e carinhoso.

Como Oliver esperou a vida toda por esse dia. Era o primeiro abraço que ele recebia da mãe – pelo menos era o primeiro abraço que ele se lembrava de receber. Era macio, quente e muito reconfortante. Ele não sabe quanto tempo ficou lá, o silêncio sendo cortado apenas pela respiração ofegante e emocionada dos dois. Algumas vezes ele sentiu o abraço da mãe afrouxar e isso apenas o fazia apertar ainda mais. Certa vez ele lera que felicidade é aquele momento que você não quer que acabe. Aquela era a felicidade. Ele se sentia feliz pela primeira vez na vida.

Finalmente Astréia afastou com firmeza delicada o filho. Mesmo em forma humana ela ainda era alta e majestosa. Ela se ajoelhou diante dele e começou:

– Em nome das estrelas, como você cresceu! Está lindo. Mais lindo do que nunca.

Oliver ficou sem jeito. Não se dava bem com elogios, especialmente os que soavam sinceros. E aquele soava mais que sincero.

– Você deve ter muitas perguntas, meu querido. Mas antes vamos até a minha casa – ou melhor, a sua casa. Lá conversaremos com mais privacidade. Para que lado fica o chalé de Astréia?

– Não acho que exista, mãe. Eu só vi chalés dos 12 deuses maiores.

A face de Astréia transfigurou-se numa careta, um misto de raiva, espanto e desgosto e depois de um segundo voltou a sua expressão serena e plácida.

– Estou sumida do mundo a tempo demais. Não me admira que alguns tenham me esquecido. Mas podemos consertar isso agora.

Ela enfiou a mão na pequena bolsa que surgiu amparada em seu ombro e de lá sacou um pequeno cristal, comprido e fino, do tamanho de uma caneta esferográfica. Ela jogou o cristal para cima, descrevendo um arco longo indo cair num pequeno lago que ficava nas costas dos chalés. Ao tocar a água o cristal expandiu-se em várias direções, formando paredes e várias formas. Ele crescia como um ser vivo, enorme e majestoso. Ao final parecia uma versão estilizada da sede da liga da justiça, mas feita de cristal multicolorido: as paredes e escadas feitas de material leitoso e opaco enquanto que janelas e portas feitas de linhas bem mais transparentes.

– Tenho certeza que Posseidon não vai se importar de que eu coloque sua casa lá. Temos uma boa relação, seu reino e o meu. Não se preocupe: ela é feita com diamantes que eu tirei de Júpiter. São virtualmente indestrutíveis – Por isso acho que você vai ter alguma dor de cabeça para abrir uma janela extra. – ela sorriu.

Oliver não sabia que havia diamantes em Júpiter ou que eles poderiam ser moldados daquela forma. Mas isso era apenas mais uma das coisas que ele não sabia. De certa forma Astréia estava certa: existia muita coisa que ele queria saber. Mas as perguntas simplesmente não se organizavam na sua cabeça era como se uma multidão enfurecida de perguntas tentasse passar ao mesmo tempo pela mesma pequena entrada individual.

Astréia fez menção de continuarem. Ela continuou falando:

 – Eu fiquei tão preocupada com você, meu pequeno – ela pegou no braço de Oliver e inspecionou, como uma mãe cuidadosa que inspeciona as mãos do filho antes do jantar. A tatuagem em forma de estrela brilhou quente ao toque da sua mão. – Espero que tenha gostado da espada que lhe mandei de presente.

– É, ela é legal. – disse Oliver sem jeito.

– Ela é uma das armas mais poderosas do Olimpo.  O trabalho dela é manter você vivo e a salvo. Ela vai emprestar seus poderes a você sempre que precisar, mas quanto mais habilidoso você se tornar menos ela vai precisar emprestar e dessa forma, mais poderosos vocês vão ser. Imagine como se ela fosse parte de você, uma pequena parte de mim que sempre vai estar com você, não importa o que aconteça. No final é como se você tivesse o poder de uma estrela na ponta de seus dedos. Foi forjada por Hefesto, com a minha ajuda – ela sorriu como se tivesse sido atingida por uma lembrança deliciosamente divertida – aliás, como será que o velho coxo está se saindo? Quando o conheci ele mal dava conta de martelar uma espada direito. Mas não acho que isso interesse a você, não é mesmo? Você quer saber e coisas mais “pessoais” não é mesmo?

Oliver engoliu um seco. Estavam quase a beira do lago, no espaço entre os chalés quatro (Atena) e cinco (Ares). Ele mal conseguiu concordar com a cabeça.

– Bom, por onde podemos começar?

Um relâmpago cegou os dois por um instante. Quando o brilho cessou viram que não estavam mais sozinhos. Ao lado deles estava um homem alto, já na beira dos cinquenta-sessenta anos, vestindo um terno Armani cinzento, com abotoaduras douradas em formas de raio. A gravata de azul intenso combinava com os olhos de mesma cor. Os cabelos grisalhos longos e meio ondulados, presos atrás da cabeça lhe emprestavam um ar sóbrio. A sua face parecia-se demais com um desenho que Oliver vira antes, na capa do jogo Age of Mithology II. Não havia dúvidas. Estavam na frente de Zeus, em carne, osso, divindade e raios em pessoa.

– Pai… – sussurrou Astréia, visivelmente consternada com a presença de Zeus. Seu corpo curvou-se para frente, a fim de prestar seus respeitos a seu Pai. Oliver mal teve tempo de ver quando o punho de Zeus acertou Astréia na altura do peito, jogando a deusa dezenas de metros em direção a água. O soco fora tão forte que ela quicou na terra e depois na lagoa duas vezes antes de desaparecer numa explosão de água.

– Sua desobediente! Os milênios de exílio nos céus não ensinaram nada a você? Você está proibida de pisar no reino da terra. – O relâmpago surgiu em sua mão, aumentando de tamanho até ficar do tamanho de uma lança longa – Eu deveria ter destruído você e toda sua soi quando tive chance.

Zeus parou um instante e fitou a casa de Astréia, no meio do lago. Sua face se contorceu de fúria e ele arremeteu o seu relâmpago recém-preparado contra a edificação. A explosão ribombou como seu o rei de todos os trovões tivesse caído ali do lado. Janelas quebraram e vidros trincaram nos chalés quatro e cinco. Mas apesar de todo o estardalhaço sonoro, nenhum arranhão transpareceu no cristão de diamante jupteriano. Zeus então voltou-se para Astréia. De alguma forma ela tinha dado um jeito de sair da água. Sua boca estava manchada de sangue. Ela cambaleava. Zeus arrancou do solo uma rocha e a ergueu sobre a cabeça com apenas uma das mãos.

– Vou mandá-la de volta para o céu, desobediente dama das estrelas, mas antes vou lhe dar uma surra que não vai esquecer pela próxima era.

Zeus ergueu a rocha novamente. Dobrou de leve o braço para trás e num brilho fugaz de luz azul a rocha foi reduzida a pedriscos. Zeus olhou para trás e viu Oliver, espada em punho, olhando fixamente para ele. Seu corpo estava envolto a uma luz azulada e seus cabelos ondulavam como se ele estivesse debaixo da água. A espada apontava diretamente para o pescoço de Zeus.

– Ora, ora, ora… se não é o fedelho das estrelas? Mostre respeito pelo rei dos deuses moleque, antes que eu reduza você e a imbecil da sua mãe a poeira cósmica.

Oliver não estava raciocinando. Ele não estava nem ao mesmo pensando. Ele era puro sentimento de raiva, revolta, desespero. Ele tinha encontrado sua mãe. O mundo voltara a fazer algum sentido e agora ele estava arriscado a perder tudo por que o cara da capa do Age of Mithology teve um acesso de raiva. Ninguém iria tirar sua mãe dele. Ninguém.

– Eu vou falar uma vez só. Afaste-se da minha mãe, ou…

– Ou o que? – Zeus empertigou-se, um relâmpago dez vezes mais brilhante surgindo em sua mão – o que você vai fazer? O que você pensa que pode fazer?

Astéron thráfsma! – gritou Oliver, quando da sua espada surgiu um raio de energia concentrado, tão forte e brilhante como ele jamais havia sonhado poder disparar.

Zeus cruzou os punhos sobre o rosto a fim de se proteger do disparo. Mesmo com os dois pés cravados no chão a força do disparo o arrastou quase uma dezena de metros. Seu terno Armani estava em frangalhos e a sua calça parecia que pertencia a uma coleção inspirada no look incrível Hulk de vestir. O raio cessou e o rei dos deuses olhou em volta, espantado. Ele não estava ferido, embora seus braços estivessem fumarando discretamente. Ele estava visivelmente espantado, seja com o fato de um meio-sangue ter levantado a mão contra ele, seja pelo fato do ataque ter sido tão impressionante.

A face de espanto deu lugar a expressão de raiva. Zeus saltou no ar, descendo com o punho pronto para esmagar Oliver. Entretanto o golpe encontrou apenas a terra nua. Zeus olhou em volta e poucos metros dali um rapaz segurava Oliver como se tivesse terminado de puxá-lo. Oliver não pode ver, mas reconheceu o toque veloz do amigo Eric.

– Valeu cara. – disse Oliver se recompondo – deixa-me apresenta vocês. Esse é Zeus, meu avô.

– Vem cá, você não cansa de arrumar confusão, não?  E além do que, tecnicamente, ele também é meu avô.  Olá senhor Zeus, vovô Zeus… É melhor que nos acalmemos a todos não é?

Zeus fez menção de atacar de novo quando ouviu uma voz chamá-lo. Era uma voz conhecida dos três. Hermes estava vestido a caráter quando falou:

– Pai celestial, cessa vosso ataque. Antes que o pior aconteça. Ainda podemos remediar a situação, eu imploro. – ele soava sincero e mesmo Oliver sentiu seu espírito de luta arrefecer. Só ali Oliver percebeu que seu amigo tremia e finalmente deu-se conta do acontecido. Ele tinha atacado o rei do Olimpo! Nada bom para um cara no primeiro dia de acampamento.

– Cala-te mensageiro. Esta luta não te pertence. Some antes que eu resolva voltar minha ira contra ti e contra os teus. – Zeus voltou-se para Astréia, relâmpago em punho. Ele ergueu o relâmpago e preparou-se para disparar, quando ouviu o grito de Hermes.

– Não me deixas escolha, Pai. Eu invoco o édito de Zeus. “Que nenhum deus erga sua mão contra outro, sob pena de encarceramento, numa prisão que apenas Zeus pode abrir!”

Zeus pareceu confuso por um momento, mas depois seu rosto se converteu numa expressão de espanto, como se ele mesmo tivesse percebido que estava cometendo uma grande bobagem. Grilhões de ouro surgiram em suas mãos e pés e ele foi envolto por uma luz dourada. Ele ainda tentou gritar, mas foi em vão. Num instante ele estava lá e no outro, tinha sumido.

Astréia estava recomposta, mas ainda curvada. Ela foi prontamente amparada por Oliver. Hermes sorriu ao ver a meio-irmã.

– Faz muito tempo mana. Desde quando mesmo?

– Desde muito tempo. – ela sorriu confiante – obrigado por manter sua palavra. E agora, o que foi que houve?

– O édito de Zeus. É novidade, você não conhece. Mas temos de ir ao Olimpo agora mesmo. Antes que uma guerra civil comece pelos atos impensados de Zeus.

– Não seria a primeira vez – Astréia suspirou – e quanto aos meninos?

– Ah, não se preocupe. Eu já falei com Eric tudo o que ele precisa saber para que as coisas se ajustem.

Num brilho de luz os dois sumiram. Oliver e Eric se olharam e só então perceberam a plateia de semideuses observando tudo em silêncio. Ia ser uma noite de muitas explicações ao conselho.

Os novos heróis do Olimpo – Capítulo 13

O peso da responsabilidade de ser o líder

Nathália foi para o chalé número cinco bem antes de saber o resultado dos dois novatos. Ela tinha mais o que fazer e sentia nos seus ossos que nenhum deles era filho de Ares. Simplesmente não tinha o perfil. Sim, ela tinha muita coisa para fazer. Ser a líder do chalé de Ares era muito mais do que um posto de prestígio. Na verdade ela não via prestígio algum em ter a vida de uma dezena de pessoas diretamente sob seus comandos.

O chalé de Ares parecia um fortim do início da idade média em reforma: era de rocha sólida, com dezenas de andaimes e escadas em volta. Ele estava em eterna reforma: ameias em forma de cruz estava sendo instalados no lado leste e a cobertura de reforço para a porta dos fundos estava quase pronta. “A única certeza da vida era a mudança” diziam as palavras escritas em grego logo na entrada. A citação, atribuída ao filósofo Heráclito de Éfeso, retratava o lado evolutivo da guerra. Só conseguimos mudar depois de lutar. Lutamos para evoluir. Por isso as eternas obras.

Nathália entrou na fortaleza, fria e solitária. Por dentro a fortaleza era ainda mais impressionante e bagunçada do que por fora. Era quadrada com quase 20 metros de lado. O salão comunal tinha duas mesas enormes e estava ladeada por dezenas de armaduras e armas de todos os tipos e épocas. Pistolas automáticas da segunda guerra mundial estavam ao lado de adagas otomanas do século IX, não muito longe de um arco samurai e uma lança dos extintos índios Kariris. No térreo ainda havia quatro quartos, um em cada canto do quadrado que formava a fortaleza. Neles os filhos de Ares dormiam em beliches. Subiu as escadas para o segundo andar do prédio, esquivando-se de uma lâmpada pendurada precariamente no meio do caminho.

O segundo andar era quase todo ocupado por um enorme salão de treinos, com uma pequena sala ao fundo. Esse era o quarto de Nathália. Era um aposento pequeno, não maior do que os quartos comunais que seus irmãos dormiam. Tinha uma cama de campanha num canto, uma janela de fundo, uma escrivaninha, um baú que servia para guardar roupas, um manequim com armadura, um rack com suas armas de preferência ao lado da janela e uma estante com três prateleiras cheias de livros. Todos ou quase todos de estratégia militar e batalhas. Ele pegou um dos livros e abriu aleatoriamente. A citação do general Ulysses S. Grant saltou seus olhos: “A arte da guerra é bastante simples. Descubra onde o seu inimigo está. Chegue nele o mais rápido que puder. Ataque-o tão forte quanto possível e tantas vezes quantas você poder, e mantenha-se em movimento.” Grant foi  general dos exercitos dos Estados Unidos, comandante-em-chefe das tropas federais, ou nortistas, durante a Guerra Civil dos Estados Unidos, sendo presidente logo depois. Ele sabia, mais do que ninguém, o peso da responsabilidade que hoje repousavam nos ombros de Nathália.

Os livros eram sempre um conforto. Algum tipo, pelo menos. A estante estava lá desde sempre, desde antes de ela chegar ao acampamento. Tinha sido montada por alguém na década de 50-60, alguém cujo nome eprdeu-se na história. Mas ela sempre era grata a este “livreiro”: muitas vezes a pequena biblioteca lhe ajudou quando ninguém mais podria. Tinha um livro especialmente pesado. O registro dos filhos de Ares. Todos. Ou quase. Todos os que tinham passado pelo acampamento. Os registros não eram muito complexos: nome, data de nascimento, endereço, parentes conhecidos e um espaço para uma mini-biografia. Cabia a ela, como líder do chalé, escrever quatro registros no dia de hoje: os quatro colegas que havaim tombado em bataha mais cedo.

Cada nome escrito representava muita coisa. Um amigo a menos no refeitório, um braço a menos numa batalha, uma saudade que o tempo apenas amenizaria, mas jamais apagaria. Mas para Nathália o peso era maior. Ela se sentia reponsável por aqueles nomes. O que escrever em cada um deles? E o pior ainda estava por vir: escrever cartas para a família.

Ela sentou-se á escrivaninha, uma mesa pequena que mal cabia um assunto de casa vez. Puxou uma velha máquina de escrever e colocou papel. Começou a escrever as cartas para a família.

Pegou o rascunho, escrtio á mão por alguém antes dela e pô-se a ler.

Caro Senhor(a),

É com profundo pesar que fui incubido(a) de reportar a morte de (por nome aqui), filho de Ares, membro efetivo e valoroso deste chalé.

(relate alguns feitos do falecido)

Permita-me, Senhor(a), apresentar as minhas sentidas condolências por este trágico acontecimento, já que (nome do falecido) que deu a vida ao serviço dos intereses dos deuses, bem como ao bem estar de seus colegas de campanha.

Queira aceitar, Senhor(a), os protestos da minha mais elevada consideração.

 – Maldição! – Nathália gritou quando arremeteu o papel furiosamente contra o lixo. Aquele modelo estéril e sem sentimentos não significava nada. Seus amigos estavam mortos. Dois rapazes e duas moças de Ares. Eles sabiam dos riscos. Eles eram guerreiros. Eles morreram para que ninguém mais morresse naquele dia. Os primeiros a chegar ao campo de batalha e os últimos a deixá-lo. Eles morreram, mas não foi, não vai ser em vão.

– Eles vão ser vingados. Pai, mãe, eu prometo: nossos irmãos, seus filhos, vão ser vingados. Isso ou morrerei tentando.

As cartas foram escritas. Algumas regadas á lágrimas de pura fúria. Camas arrumadas, poucos pertences recolhidos. Tudo embalado para ser entregue aos filhos de Hermes pela manhã. Foi que uma explosão estremeceu o prédio. “Outro ataque?” pensou ela enquanto vestia apressadamente a sua armadura. Dessa vez nenhum filho de Ares ia morrer. Ela correu pelo lado sul, de onde a explosão tinha vindo. Mas nada poderia prepara-la para a cena que estava em vias de presenciar.