Os novos heróis do Olimpo: Capítulo 25

O ladrão e a feiticeira

Tudo a noite fica mais sinistro. Quando chove fica ainda pior. A garoa fininha estava dando lugar a uma neblina que emprestava um ar ainda mais sobrenatural ao hotel estância, completamente deserto a essa hora. Eric podia ouvir um aparelho de som tocando música clássica ao longe, mas bem longe mesmo. Ele passou pelo prédio da administração e pelos estábulos. Nenhum som. Será que os cavalos dormiam assim tão pesado? Ele pensou enquanto passava. Desceu a escadaria central em direção ás áreas de lazer. Passou pelas piscinas. Andava decidido, embora sua mente não demonstrasse a mesma certeza de seu corpo.
Era como se ele estivesse sendo guiado. Ele tinha certeza que se quisesse poderia quebrar a esse “encanto” e voltar para o sofá. Mas havia alguma coisa no ar, alguma coisa naquele apelo. “Confie em seus instintos” dissera seu pai dias antes. Era complicado. Eric nunca tivera muita certeza de si mesmo.
O clube acabava a beira de um lago. As lanchas de passeio estavam ancoradas num pequeno e charmoso píer de madeira. O som ficava cada vez mais forte a medida que ele se aproximava. Vinha de algum lugar do outro lado do lago. O que ele poderia fazer? Pegar uma canoa e remar até lá parecia ser uma boa opção, quando ele ouviu alguma coisa se mexer na água. Um barco vinha se aproximando. Instintivamente ele correu para dentro de um dos banheiros químicos que estavam ao lado do píer, rezando para não ser visto.
No começo ele pensou que seus ouvidos o tivessem enganado. Mas logo depois viu uma luz indistinta no meio da água. Depois viu oque parecia ser uma cabeça de dragão surgir em meio ao nevoeiro. Logo ele se acalmou a perceber que se tratava de uma imitação de um drakkar, um navio viking. Visivelmente menor a embarcação deveria ter uns seis metros de comprimento por dois a dois e meio de largura. Na proa a imagem estilizada do que parecia um dragão. Mas olhando bem não era um dragão e sim um monstruoso morcego de pescoço alongado. Dentro da nau três navegantes. Todas crianças. Todas pálidas. Todas com enormes grilhões no pescoço. Se moviam com dificuldade como se estivessem cansadas ou fracas.
O drakkar ancorou e uma delas desceu, quase caindo do píer na água. Ela se levantou rápido quando ouras pessoas surgiram: eram duas meninas. Uma delas ele reconheceu como a menina da recepção. A outra era igualzinha a ela. Só podiam ser gêmeas. Ou isso, ou eram os clones mais perfeitos que Eric já tinha visto. As duas vestiam roupas pretas e coladas – provavelmente licra ou espandex – deixando as silhuetas de seus corpos atléticos perfeitamente marcados. Ambas carregavam garrafas de vidro – se pareciam com as garrafas de leite do desenho do Manda-Chuva – cheias de um líquido iridescente. Algumas garrafas brilhavam com uma suave cor dourada. Foi que Eric viu algo que fez sua garganta secar.
Saindo do drakkar uma figura se erguia majestosamente. As crianças se afastavam dela. Mesmo as duas gêmeas-clones foram tomadas por pleno e aparentemente justificado terror. Ela deslizava pelo ar, como se estivesse no hoverboard do filme de volta para o futuro. Seu corpo era velho, encarquilhado para frente, rosto sem idade, coberto de rugas grossas, os longos cabelos eram de um branco fino e doentio. As luzes enfraqueciam na sua passagem e mesmo a tocha que vinha na boca da cabeça entalhada de morcego na proa do barco pareceu tremeluzir. Eric sentiu um frio terrível lhe acossando a alma.
– Onde está o meu tributo? – a voz era suave como uma brisa gelada numa noite quente, mas o no final havia um gostinho amargo, como uma navalha afiada passando rente demais a um rosto recém-barbeado.
– Aqui minha senhora – uma das gêmeas-clones se adiantou oferecendo as garrafas que portava – direto dos mortais hospedados.
Ela ponderou observando a oferenda a sua frente. Pegou uma das garrafas com brilho dourado, destampou com desdém e bebeu um pouco. A cor voltou momentaneamente a seu rosto e seus cabelos brancos ganharam uma cor acinzentada, passando rapidamente para o preto platinado. Ela lambeu os lábios, satisfeita, e sorriu. Eric guardou para si o grito de espanto. Ela não tinha dentes humanos. Os lábios se esticaram numa bocarra inumana, com um sorriso deformado, recheados com dentes pontiagudos, tal como um tubarão demoníaco. Os olhos pareciam cintilar de prazer quando ela os abriu, depois de sorver mais um gole.
– Ah… sangue de meio-deuses. – ela sibilou com prazer – e temos mais de uma variedade?
As meninas concordaram de forma sincronizada com as cabeças, como se fosse um movimento ensaiado. Estava na cara que estavam tentando desesperadamente agradar aquele homem. As meninas pareciam cãezinhos esperando um afago do dono. Só faltavam abanar os rabos.
– Bem – disse ela com a mesma suavidade de navalha que Eric sentiu antes – precisamos garantir que não deixem a nossa hospitalidade tão cedo, não é mesmo? Façam os arranjos. Eu os quero aqui, por uma estada mais longa. – ela virou-se de costas enquanto uma das crianças com grilhões apressou-se para buscar o resto das garrafas, acondicionando-as numa caixa de madeira que parecia ser própria para carregar vinhos caros.
– Senhora… – a voz de uma das gêmeas saiu fina e cortada de terror, como se temesse por sua vida apenas por dirigir a palavra a sua mestra. A figura soturna parou, mas não virou-se para a moça de trajes negros. A menina engoliu um seco e continuou da melhor forma que pode – Um dos visitantes… eu… eu acho que ele é capaz de sentir a nossa presença. Pelo menos, não conseguimos fazê-lo adormecer. Sempre que íamos roubar sua energia ele despertava. Tenho certeza que quase me viu quando sai do seu chalé pela janela. Eu…
Ela não teve tempo de responder. Num instante a figura monstruosa estava em cima dela, agarrando-a pelo pescoço e erguendo alto no céu. Ela agarrava as mãos dele debilmente, tentando livrar-se do aperto férreo. Suas veias saltaram do pescoço e sua pele ficou ainda mais clara. Então ela começou a envelhecer. Em segundos ela passou de menina a idosa, magra e acabada como aqueles prisioneiros dos campos de concentração nazista. Por fim ela parou de se debater, sendo largada no chão. A figura parecia ainda mais jovem e bela, como se tivesse pouco mais de vinte anos. Ela virou-se voltou para o barco, sem olhar para trás.
– A sua irmã era fraca. Livre-se do corpo. Amanhã farei outra para lhe fazer companhia. E livre-se do semideus que vocês não puderam dar cabo. Fui claro?
A menina respondeu que sim. Quando o barco se afastou do píer a garoa fina deu lugar a uma chuva forte, dissolvendo parte da neblina. Ela começou a carregar o corpo da irmã, quando sentiu a lâmina de bronze celestial tocar-lhe o pescoço.
– Devagar e sem fazer barulho – disse Eric, puxando uma das mãos da menina para trás – eu quero apenas respostas e se você as der não vai ter problema nenhum para você. Por favor, não faça nada de estúpido para nenhum de nós. Concorda?
A menina se virou e Eric percebeu que ela chorava. As lágrimas rasgavam o rosto, indeléveis, mesmo com a chuva forte que caía. Ele deu seu melhor sorriso, levando seu charme ao máximo. Ele sustentou o olhar, tentando transmitir calma, como vira o encantador de cães fazer num episódio na TV.
– Quem é ele e o que é este lugar? O que é você? Por que aquelas crianças estão acorrentadas?
Ela titubeou um pouco, mas por fim respondeu:
– Ela é Mormo. Ela é a senhora de todos os vampiros. Esta é sua casa. Eu sou… – ela titubeou – eu sou uma das crianças mal criadas que mormo sequestrou e hoje sou sua serva. Aqueles outros são servos também, mas são escravos de sangue. Quando não há visitantes nos chalés, Mormo se alimenta delas.
Eric a ouviu falar por vários minutos. Ela estava desabafando. Pelo que ele entendeu Mormo era uma das “consortes” da deusa Hécate. Seu trabalho era sequestrar e punir crianças desobedientes, tomando-lhes o sangue. Diz a lenda que ela se tornou um espírito vingativo quando a rainha dos lestrigões devorou seus filhos. Desentendeu-se com Hécate e fora banida por espalhar vampiros pelo mundo. Depois de ouvir pacientemente Eric perguntou.
– E por que você não foge? Por que a deixa escravizar dessa forma?
Ela abriu um pouco blusa, deixando a mostra uma pequena corrente de prata, com um pequeno cadeado de ouro na ponta.
– Com isso ela pode me obrigar a ficar. E fazer… outras coisas… – as lágrimas surgiram de novo em seus olhos.
Eric estendeu a mão e tocou no cadeado. Era frio e maligno. Ele tinha um espectro completo de sensações ruins como medo, repulsa, ódio e pavor. Ele se concentrou, tentando fazer com que seu calor suplantasse aqueles sentimentos. Por fim ele deu um puxão forte e o cadeado se abriu. A menina deu dois passos para trás, atônita. Ela estava livre. Só os desuses sabem desde quando ela não se sentia assim. Ela sorriu, gratidão estampada no rosto. Então curvou-se para frente e um par de asas surgiu em suas costas. Seu semblante mudou. Ela estava se tornando outra coisa… uma harpia.
– Jamais vou esquecê-lo mortal. – disse ela batendo as asas e voando para longe – mas se quiser mesmo salvar alguém fuja enquanto pode. E se puder, salve a moça que está naquela cabana. Ela está aqui desde sempre.
Num bater de asas ela se foi. Eric sentiu-se sozinho, mas pelo menos conseguiu divisar a cabana afastada. As súplicas de socorro voltaram a seus ouvidos. Ele pegou uma das canoas e rumou para lá. Seu relógio marcava pouco mais de meia-noite. Ele avançou rápida e silenciosamente. Era uma cabana temática, imitando aquelas de filmes de verão norte-americanos. Havia um pequeno píer na entrada. Ele amarrou o barco lá e desceu cautelosamente. Tentou a porta. Ela abriu pouco depois de duas tentativas. “Não existem fechaduras e trancas para o rei das fechaduras”. As palavras soaram vazias e de pouco alívio. Ele abriu a porta, que rangeu na noite.
Era um interior completamente diferente de todo o resto. Parecia uma masmorra medieval. As paredes eram de pedra sólida, blocos grossos e irregulares colados com argamassa escura. Tochas iluminavam o ambiente, emprestando um cheiro de fumaça ao lugar. O piso era de terra batida e úmida, como terra recém-escavada de um cemitério. No final do aposento estava ela: a dona das súplicas.
Era uma menina loira, cabelos desgrenhados e finos espalhados pelo rosto encharcado de suor. Os olhos azuis estavam vermelhos de tanto chorar e a boca seca de tanto repetir as súplicas. Ela estava no chão, jogada como uma boneca de trapos, o pescoço preso à parede com uma enorme coleira de ferro e uma corrente grossa e pesada. Perto dela, mas fora de seu alcance, estavam deliciosos pratos. Perto dela estava um prato de sopa fundo, onde comida estragada, misturada com um pouco de lama justavam vermes e moscas. Ela olhou para o menino olhos aliviados e suspirou…
– Você demorou, cavaleiro. – disse ela desmaiando em seguida.
Eric a aparou tão rápido quando pode. Com um movimento rápido retirou a corrente de seu pescoço e a deitou em seu colo. Ele alisou seu rosto até ela acordar. Ela ruborizou ao perceber que dessa vez não estava sonhando.
– Eu… eu não estou sonhando? – disse ela passando a mão no pescoço e sentindo-se livre dos grilhões pela primeira vez em muito tempo. O rosto iluminou-se de alegria e ela abraçou Eric com força. Assim ficou por vários minutos, sentindo o calor do peito do rapaz.
Eric por sua vez não dissera nada. Dizer o que? Seu charme estava esvaziado. Ele tinha vivido muita coisa nessas últimas semanas. Achava que mais nada a o surpreenderia. Estava enganado. Por fim o abraço da menina afrouxou e eles puderam conversar.
– Obrigada por me libertar, cavaleiro. Tenho contigo e com teu reino dívida eterna. Eu sou Isabel de Ganon, filha do Duque de Ganon, primo de Afonso III, rei de Astúrias. Meu pai pagará para ti grande resgate se me levar deste odioso lugar.
Por um minuto a cabeça de Eric pareceu rodar. Cavaleiro? Reino? Era pedir demais encontrar alguma coisa normal neste mundo? Ele se recompôs e se colocou de pé, ajudando a menina a se levantar.
-Olha mina, eu sou Eric, filho de Hermes, er… da casa de Hermes. Vamos tirar você daqui e depois tomamos conta das apresentações mais detalhadas.
A menina olhou torto para ele mas concordou. Saíram os dois em direção ao píer. A noite havia avançado bastante. Teria ele perdido a noção do tempo? A chuva ainda continuava, mas a neblina se dissipara completamente. E foi isso que o encheu de terror: a visão do drakkar se aproximando.
A canoa que ele tinha trazido até ali explodiu num baque seco. Eric viu o navio repleto de pequenos diabretes. Todos portavam armas e se vestiam como versões em miniatura, deformados, dos vikings. Na popa do barco, sentada num trono e bebericando um pouco mais da energia vital dos semideuses, estava Mormo. Linda e majestosa. Eric não teve dúvidas. Colocou Isabel nos braços e sorriu. Estava na hora de deixar de ser o cavaleiro e voltar a ser o Eric de sempre.
– Olha só mina… você conhece Naruto? Não? Depois te explico melhor. Tá na hora do Mizu no Kinobiri!
Eric começou a correr. Os primeiros passos foram lentos, mas logo as asas saíram de seus pés e quando ele tocou na água, correu sobre o lago como se estivesse numa pista de corridas.
– Sayonara, trouxas! – gritou ele enquanto corria em direção á sede da fazenda.

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Os novos heróis do Olimpo: Capítulo 24

O jardim das delícias.

A viagem pela estrada seguia num bom ritmo. Se a estrada não era das melhores o carro da Giges era muito bom para aquele tipo de pista mal cuidada que apenas as rodovias brasileiras podem ser. Oliver estava na direção, sendo guiado pelos olhos atentos de Jade. Desde o evento com as caçadoras a filha da Apolo estava tensa, sempre a espera que a cada curva da estrada houvesse um grupo delas esperando para emboscá-las. O arco e sua alijava de flechas estava no banco da frente, em seu colo, prontos para ação.
No banco de trás, seguindo num silêncio sepulcral, estavam Nathália, Eric e Lucas. Lucas parecia ter achado uma boa posição para dormir, com a cara enfiada numa almofada feita com folhas aromáticas secas envolvidas numa velha camiseta do santuário. Eric tentava decifrar os segredos de uma revistinha de palavras cruzadas – o que o tinha deixado mais frustrado do que alegre nos últimos quilômetros. Mas a mais calada de todas era Nathália. Ela estava sentada reta no banco, entre os dois meninos, braços cruzados sobre o peito, respiração pesada e lenta. Seu semblante estava sério e seus olhos fechados davam a impressão de que ela estava mais incomodada do que relaxando. De certo modo ela lembrara a expressão de Shi-fu, do desenho kung fu panda antes de conseguir a “paz interior”.
Numa das viradas da estrada Oliver teve de pegar um trecho em obras, onde a buraqueira na pista era maior que a própria pista. Era como se dissesse: dirija devagar, nestes buracos têm algum asfalto. Depois de esquivar dos piores por uns dois quilômetros, Oliver caiu pesadamente num outro, maior e inescapável. O piso do carro bateu e todo o se interior sacudiu. Lucas fora arrancado de seu sono pelo solavanco do carro e a revista de Eric voou até o colo de Jade. Mas o que chamou a atenção de todos foi o gemido de Nathália. A sua face estava transfigurada de dor quando todos olharam para ela. Num instante ela se recompôs, assumindo a mesma pose de estátua de olhos fechados meditando, mas a máscara já havia caído. Ela estava sentindo muita dor naquela estrada.
– Oliver, pare o carro assim que achar uma sombra. – a ordem de Jade saiu límpida e inquestionável. No mesmo instante Oliver já procurava um lugar para estacionarem. Numa curva da pista acharam uma belíssima e frondosa jaqueira. Oliver deu sinal e estacionou.
– Eu estou bem não precisa parar por minha causa – protestou Nathália, sob o olhar repreensivo dos quatro amigos. – Sério gente, o solavanco só me pegou de mau jeito. Eu posso aguentar a estrada…
Jade pegou um termômetro da bolsa e enfiou na boca da amiga. Ela cruzou os braços de novo como uma menina birrenta contrariada por uma mãe zelosa numa loja de doces. Por fim o termômetro apitou, confirmando as suspeitas de Jade.
– Apesar de todos os nossos cuidados uma de suas feridas não parece estar a fim de cicatrizar. Você precisa de descanso. Um quarto, cama de verdade e roupas limpas. Sem isso você estará vulnerável por mais tempo que queremos ou precisamos. Oliver, passe para o banco do passageiro e Eric assume o volante. – ela olhou profundamente para o filho de Hermes antes de perguntar – Acha que pode nos guiar em boa velocidade sem tantos solavancos?
– High eye sir, quer dizer, mylady! – Eric parecia estra mais que feliz em ter o carro de novo sob seu controle. – vai parecer que estamos numa pista com asfalto e não fazendo um rally na superfície da Lua.
– Olive, esse seu tablet pode nos achar um bom lugar para pernoite? Nada caro e bem perto daqui. Pelo menos dois dias de estadia. – ela penou um pouco mais e acrescentou – esquece a parte do preço. Contanto que não seja o Ritz podemos pagar.
Oliver respondeu silenciosamente com a cabeça e começou a procurar. Como não recebera qualquer ordem Lucas voltou a cochilar. Eric aguardava os comandos de Oliver.
– Vamos lá navegador, seu cão preguiçoso. Faça valer a sua ração! Trace o curso para o porto seguro mais próxima, yarrr! – Eric soava como um bucaneiro saído de Piratas do Caribe.
Oliver olhou o frank por alguns segundos, passeou seus dedos pela tela e por fim determinou: – Segue reto pela estrada, até chegar a uma estrada de terra. Mais ou menos uns 20 km. Depois vira a esquerda em direção do Parque Terra Ronca. Lá tem um hotel estância chamado Jardim dos Prazeres. É bem cotado pelo guia on line de estradas. E o melhor, como fica longe de tudo e de todos não vamos precisar nos preocupar com homens de preto ou semideusas imortais de moto.
A viagem transcorreu com a precisão cirúrgica que apenas o talento ou a sorte podem promover. Mesmo o clima, que parecia estar se fechando novamente, não atrapalhou em nada. Oliver como navegador e Eric na direção eram uma dupla difícil de bater. Ao ver os dois juntos era de se esperar que conseguissem entrar e sair do labirinto da ilha de Creta antes de chamar a atenção do ilustre minotauro – desde que estivessem de posse de um tablete com acesso á internet. Em menos de duas horas de estrada estavam passando pela porteira de um hotel fazenda com o nome “Jardim das Delícias”. Passaram a porteira e seguiram por mais dez minutos, por uma estrada de terra batida, ladeada por cercas de arame farpado, divisando as duas metades de um enorme pasto, salpicado por centenas de mudas de plantas nativas. Passaram até por cima de uma ponte de madeira pouco acima de um rio de águas cristalinas.
Era um hotel fazenda temático, imitando as habitações árabes do período do alto califado. Era como se alguém tivesse arrancado um pedaço de Agraba, do desenho do Aladin, e tivesse dado vida ao cenário. Mas claro, com alguns toques que não remetiam à cultura árabe, como colunas gregas e fontes com pequenos e rechonchudos anjos carregando arcos com flechas cujas pontas lembravam corações.
– É cupido – exclamou Lucas – puxa, temos que avisar as filhas de Afrodite… se esse lugar tiver TV à cabo elas poderiam vir para cá na véspera do concurso de miss universo!
Intencional ou não a piada de Lucas provocou um rasgo na seriedade que tinha se instalado no grupo. A fazenda tinha cerca de 20 quartos e chalés temáticos em volta de uma grande casa – essa sim com jeitão de fazenda do interior de Goiás. Ao fundo via-se um estábulo muito bonito. Logo após a sede estendia-se uma ladeira descendo, dando passagem para várias piscinas, bares e quadras poliesportivas. Lá em baixo mesmo divisaram o que parecia ser um lago de pesque e pague. Haviam poucos carros ali estacionados. Jade supôs que o grosso do movimento se dava na época das férias escolares e nos finais de semana.
Ela desceu do carro, pedindo que Oliver o acompanhasse. Os dois foram até a recepção. Uma menina de no máximo 16 anos, pálida como cera de vela, estava ocupada com um celular nas mãos, jogando um joguinho estilo “pássaros descuidados.” Foi preciso que ela morresse umas duas vezes antes de notar a presença dos dois.
– Bem vindos ao hotel estância Jardim das Delícias. Vocês tem reserva?
– Tentamos, mas o site de vocês estava fora do ar – Oliver se adiantou. – Estamos em grupo, viajando pelo interior do país. Queremos estadia para cinco pessoas. Queremos chalés mais afastados porque queremos fugir da bagunça e do barulho.
– Claro, fiquem tranquilos. Se vieram em busca de fugir do barulho e da agitação da cidade grande vieram para o lugar certo. O nosso hotel é dos mais silenciosos – exceto no segundo domingo de cada mês, quando temos uma celebração especial. Hippies e wiccas vêm de todo o Brasil. É muito divertido, mas pode ser barulhento as vezes. Bem, fazem questão de ficar todos juntos?
– Não, mas os chalés têm de serem próximos um do outro. – respondeu Jade.
– Neste caso temos os 13 e 14. Vamos lá, eu vou mostrar as acomodações para vocês. A forma de pagamento será…
– À vista. Cartão. Pode anotar o meu nome – começou Oliver – Bernardo Stelle. Nasci em Roma, Itália – disse ele mostrando o passaporte italiano.
Os trâmites demoraram pouco e “Bernardo” deixou dois dias pagos antecipadamente, incluindo café da manha, almoço, jantar e dois passeios-surpresa. Ao voltarem para o carro encontraram Nathália dormindo pesadamente no colo de Eric. Ele tinha tomado a almofada de Lucas e tinha sentado no banco de trás, expulsando também o filho de Demeter para o banco da frente. A viajem até os chalés durou pouco tempo e em menos de meia hora estavam instalados.
Jade ficou instalando Nathália na sua cama, no charmoso chalé 13. Ela e jade ficariam lá, cada um com seu quarto. Oliver teria de dividir espaço com Eric e Lucas no outro chalé. Dois quartos e duas camas. Alguém teria de dormir no sofá. Depois de uma animada partida de dominó Oliver e Lucas ficaram com os quartos e Eric foi para o sofá. Não que fosse desconfortável – Eric já tinha dormido em lugares bem piores.
A chuva não deu trégua e emendou direto tarde adentro e noite a fora. Após o farto jantar foram todos para suas camas. Como suspeitavam mais cedo, a instância estava quase vazia. Fora eles apenas alguns turistas perdidos. Não juntaria gente o bastante para fazer uma partida de futebol de salão. As camas eram convidativas e o barulho da chuva, tamborilando sobre o teto dos chalés, fazia uma melodia monótona que trazia o sono com rapidez.
Eric estava quase pegando no sono. Como prêmio de consolação tinha recebi de cada amigo um travesseiro. Tinha dois e podia dispor deles para fazer o sofá ainda mais macio. Mas sempre que Eric dava uma fechada de olhos mais forte ele sentia que estava sendo observado. Por fim o sono o venceu, mesmo com a terrível sensação. Ele cochilou um sono leve, como apenas os filhos de Hermes podem ter. Foi quando ouviu. Poderia ser um sonho, por que não? Era um gemido, um sussurro… Uma súplica. Vinha não se sabe de onde. Era um pedido de ajuda. Misturada ao sonho de Eric, o pedido de ajuda se perdeu nas fantasias heroicas do rapaz. Sonhava ele em ter todas as lindas filhas de Afrodite a seus pés, enquanto heroicamente salvava o santuário dos homens de preto. Sonhava com mais tempo com o pai, ambos correndo sobre a planície de maratona, sem se preocupar. Sonhava em manter Oliver sempre como seu amigo; não pelo que seu pai lhe dissera na noite em que ele fora reclamado, mas porque sabia que Oliver seria mais que um amigo. Ele também sabia que aquilo que ele tinha de fazer era terrível. Rezava, desejava, que a amizade dos dois sobrevivesse a seus atos.
Por fim ele acordou, suado, o lençol enredado em suas pernas e um dos travesseiros jogado longe. Lá fora a chuva ainda tamborilava de leve e ele sentiu de novo a presença ruim. A janela da sala bateu com a força do vento e ele foi lá fechar. Podia jurar que tinha deixado aquela janela fechada. Ele olhou para o mundo do lado de fora do chalé: escuro e sinistro, com sombras bruxuleando pelas luzes dos postes, agitados pelo vento e a chuva fina. Foi quando ele ouviu o pedido de ajuda de novo. Era pungente, irresistível. Quase como o canto de uma sereia. “Uma pessoa precisa desesperadamente de ajuda” pensou ele. Quantas vezes não fora ele que estivera nas mesmas condições? Ele foi até a mochila, vestiu a camiseta com a imagem de Goku e Vegeta fazendo a dança da fusão, um moletom e saiu pela janela que acabara de fechar. A noite estava começando para valer.

Os novos heróis do Olimpo – Capítulo 23

Entre mortos e feridos salvaram-se todos

Nathália acordou gritando. O pesadelo de novo. Num instante estava em casa coma irmã Verônica quando foram atacadas. Nathália tinha seis anos e Verônica dezesseis. Foram levadas ao santuário e lá, Verônica seguiu com as caçadoras de Artemis. E isso faz dez anos. Nenhuma notícia, nenhuma palavra. Apenas a dúvida. “A dúvida que leva ao medo; o medo que leva ao ódio; o ódio que leva ao lado negro da força”, como dizia a frase que tinha lido numa revista em quadrinhos do lado de fora do consultório da Dra. Cassandra certa vez.

Ela olhou ao redor. Estava no que parecia uma oca indígena. Chutou uns dez metros de diâmetro, teto baixo. Estava deitada numa cama improvisada, feita com bambus trançados e espetados no chão. Acima um teto arredondado em forma de cúpula era composto por uma centena de galhos de acerola. As árvores também forneciam a matéria prima das paredes. Num canto um pequeno e improvisado fogãozinho de lenha mantinha aquecido o que parecia uma panela de chá ou sopa. O cheiro era doce e se misturava com a fumaça da lenha, que emprestava um ar sobrenatural ao lugar. Ela estava toda enfaixada: pelo menos onde podia sentir.

Ao seu lado, em idêntica cama, mas em sono solto, Oliver babava, roncando despreocupadamente. Estavam com roupas limpas e também estava todo remendado. Especialmente seu rosto. O olho roxo ia ficar ali por vários dias, ambrósia ou não. Do lado de fora podiam ouvir o som da música tocando: era rádio. Uma dessas novas cantoras pop, cujo nome não conseguia decorar cantava alguma coisa em inglês sobre o coração partido. Na cabeça dela a imagem das filhas de Afrodite suspirando apaixonadas se formou. E junto com elas a imagem de Dezan. Ela sacudiu a cabeça com força, dissolvendo as imagens e voltando a realidade. Ela fez força para se levantar e percebeu que estava amarrada a vários sinos. Ela se sentiu um verdadeiro sino dos ventos enquanto se aprumava na cama.

– Não falei que ia funcionar? – disse Eric com o tom zombeteiro de sempre. – Foi como eu disse: era só passar o efeito do ferimento mortal que a rainha de todas as lutas ia bancar a machona e tentar se levantar. Dito e feito. Me deve 20 pratas.

Jade enfiou a mão no bolso e puxou uma nota de 20. Apontou-a na direção de Eric segurando a nota com a ponta dos dedos, resignada. Tão logo ele a tomou de suas mãos, ela virou-se para Nathália com um ar que era um misto de desapontamento, surpresa e preocupação.

– Você está bem amiga? Já consegue falar? – Jade soava realmente preocupada. Por um momento Nathália baixou a guarda e deixou sua fragilidade transparecer, apesar da presença de Eric. Seus olhos se encheram de lágrimas e ela fungou. Depois, engoliu o choro e com a voz ainda embargada respondeu: “ainda dói… aqui”, disse ela apontando para o coração. Jade aproximou-se e deu um fraternal abraço na amiga. – É o pesadelo, não é? – perguntou ela.

Nathália limitou-se a responder um melancólico “sim” e deixou a cabeça afundar no colo da amiga. Eric deixou a boca aberta como se fosse fazer alguma piada, mas subitamente achou pouco apropriado. Num instante, ao ver as duas abraçadas, Jade consolando Nathália como uma mãe consola uma filha ele se sentiu terrivelmente desconfortável. Virou de costas e partiu em busca de Lucas. “O que o menino do dedo verde estaria tramando e como eu poderia atormentá-lo um pouco?” pensava Eric deixando as duas a sós.

Por fim o choro de Nathália foi se acalmando e ela se recompôs na cama, guarda levantada e semblante sério como sempre.

– Onde estamos?

– Ainda perto do posto. Achamos que seria muito arriscado levar vocês a um hospital mortal e resolvemos montar nossa pequena emergência médica para semideuses aqui. Lucas providenciou abrigo e comida, eu cuidei dos ferimentos de vocês dois e sempre que precisava comprar alguma coisa Eric ia até a cidade. Ele é muito bom com compras, sabe? Um comerciante nato. – Jade explicou devagar, indo até a panela que fumegava com cheiro doce. Pegou uma concha de plástico, dessas de lojas de 1,99 e encheu uma cumbuca pequena com a mistura de cor rosada. Entregou a Nathália com uma colher de madeira. – Coma, vai te fazer bem.

Nathália deu uma boa colherada. Era gostosa, mas o cheiro adocicado servia apenas para esconder o ardido da mistura. Duas colheradas mais tarde já estava suando aos borbotões. Tentou divisar mentalmente os ingredientes. Sentiu um pouco de carne de soja, caldo de tomates, cebolas fritas e mais alguma coisa. Logo comentou:

– Quanto tempo?

– Dois dias. Oliver dormiu o tempo todo. E quando acordou só falava e grego. Quando finalmente colocamos aquele tabet dele para traduzir ele dormiu de novo. Ms agora é a minha vez de fazer as perguntas. Segundo Lucas vocês estavam se dando bem com as caçadoras. Por que o atrito com elas?

– Eu não sei – Nathália procurou mentir da melhor maneira que podia – não sei mesmo. Numa hora estávamos conversando e na outra eu já estava sendo atacada. Se Oliver não tivesse aparecido… – ela olhou para o amigo e deixou escapar um suspiro longo. Não soube se era de dor ou de outra coisa, mas o suspiro foi ouvido por Jade. No mesmo instante ela pegou no pulso de Nathália para verificar como estava o braço dela. O aperto fez a filha de ares soltar um gritinho de espanto e de dor.

– Pelo visto ainda não está bom o bastante. Vamos precisar de mais tempo aqui. Se quiser esticar as pernas, você está liberada, mas nada de sair por ai enfrentando monstros e semideusas imortais.

– Eu prometo – Nathália disse sorrindo ao se levantar, tentando esconder as dores no peito. Costelas quebradas doem muito.

Ela saiu da oca, deixando Oliver no sono pesado que estava. Lá fora o sol estava para se por. O céu do cerrado salpicava-se de vermelho com centenas de brilhos e nuances diferentes. Ela viu Eric tentando desenrolar cipós do cabelo. Seja qual for a brincadeira que ele tinha pensando não tinha dado muito certo. Ela sentou na carroceria da caminhonete, onde um colchão inflável tinha sido posto e deitou nele, olhando para o céu.

– Ela não me convenceu. Está escondendo alguma coisa. As caçadoras são leais aos servos dos deuses. Não nos atacariam sem provocação. – Jade olhava com seriedade para Eric que ainda estava empenhado na missão de livrar sua cabeça de cipós e ervas daninhas.

– Espero que Oliver possa nos dar alguma luz sobre isso. Eu não gostei do estado que o encontramos. E o descampado… parecia que tinha rolado um MMA dos deuses ali. Aquela grama queimada… a lama… cara, eu nunca vi nada assim na vida.  Você acha que o Oliver vai demorar para acordar?

– Não sei. Sou nova nesse negócio de curandeirismo. Mas tem uma teoria que eu gostaria de testar assim que anoitecer. Ou melhor, lá pelas sete da noite.

Lucas acabara de chegar. Trazia consigo alguns cocos verdes. O pelo visto seria o que sobrou da sopa de ambrosia com caldo de proteína de soja e para beber água de coco. Eric revirou os olhos. O que não daria para um delicioso duplo cheese bacon com muita maionese extra ao invés da gororoba natureba que era forçado a comer já fazia dois dias.

A noite avançou e Jade pôs seu plano em prática. Com a ajuda de Eric e Lucas levaram Oliver para fora da oca. Tiraram também sua camisa, deixando-o só de bermudas. As ataduras também foram retiradas, sob os veementes protestos de Lucas que odiava ver sangue. Depois se afastaram. Num primeiro minuto nada aconteceu, mas depois a pele do menino começou a ficar laminada, dando reflexos do céu estrelado lá em cima. A sua pele foi ficando escura como a noite, especialmente nos locais mais afetados. Ali o reflexo das estrelas era tão forte que pareciam rivalizar com as originais lá no céu. Vários minutos se passaram assim e então o menino bocejou e se espreguiçou na cama de bambu e depois abriu os olhos assustado. As manchas negras na pele haviam sumido, assim como os vestígios de todos os ferimentos.

– Menina, não sei que magia você fez, mas espero que possa fazer de novo quando eu estiver ferido assim! – Eric exultava de alegria, dançando em volta do amigo um tipo de dança da vitória. Oliver olhava os amigos em volta com um olhar abobado, como o de alguém que é acordado no meio do sono por uma situação completamente diferente.

– Eu imaginei que fosse como os outros filhos dos Deuses. No seu elemento natural certos semideuses se curam mais rápido. Com os filhos de Posseidon é na água, com os filhos de Zeus é na chuva e na tempestade, com os filhos de Hades é ficar embaixo da terra… comigo e com meus irmãos o sol ajuda a cicatrizar as feridas mais rápido. Mas nada assim tão rápido. Não creio que exista as mesmas condições para os filhos de Hermes, Ares ou Deméter. – Jade explicava casualmente enquanto tomava a temperatura de Oliver e com a ajuda de um estetoscópio ouvia o coração do rapaz. Parecia uma médica de verdade.

– Como é que você está irmão? Se lembra de alguma coisa?

– Não muito. Senti que tinha algo errado com as caçadoras, eu acho… resolvi seguir as duas. Quando vi já estavam se atacando. – Oliver ainda estava confuso – eu combati com elas, mas não sei bem o que houve, mas acho que consegui afugentá-las. – mesmo confuso Oliver achou por bem deixar de lado a parte de uma tinha entrado em modo berserk e que um outro lado da sua personalidade tentou assumir o controle do seu corpo.

– Quer dizer que você não sabe por que as caçadoras nos atacaram? – Jade parecia estranhamente inquisidora ao perguntar.

– Não. Não faço ideia. Só vi as duas conversando à distância. Quando cheguei perto o bastante para intervir a Nathália já tinha apanhado mais que Chael Sonnen nas mãos do Anderson Silva.

Nathália se empertigou ao ouvir o nome citado dessa forma. Não sabia quem era Chael Sonnem ou Andeson Silva, mas sabia que vindo, tanto de Oliver como de Eric não poderia ser coisa boa. Ela gemeu ao descer da caminhonete, sendo prontamente amparada por Lucas. Mas mesmo assim ela estava agradecida por Oliver não sabe de nada – ou pelo menos não revelar o que poderia saber.

– E como foi que vocês nos encontraram?  – Oliver procurava em volta por seu tablet enquanto tirava do bolso da mochila uma barra de chocolate.

– Eu senti um aperto no peito e um desejo de encontrar com vocês. Senti que tinha algo errado – disse Jade.

– É… eu também senti o meu sentido de aranha disparando. My spider sense is tingling. – disse Eric depois de roubar o chocolate das mãos de Oliver.

Todos olharam para Lucas. Ele estava sentado numa poltrona feita de galhos de goiabeira. Ele olhou para todos e deu de ombros.  – Não senti nada… – disse ele continuando a crescer e comer goiabas.

– Bom, já que estamos todos quase recuperados, vamos jantar e depois dormir. Amanha cedo quero pegar a estrada. Já perdemos tempo demais aqui. – Jade soou como uma verdadeira líder. Não havia mais o que fazer… foram dormir.

Clube Pandiá Calógeras. Noite. As três enormes figuras, vestidas de camisetas havaianas, bermudas de praia e chinelos de dedo pararam no exato local onde o grupo tinha acampado, dias atrás. Um deles, algo e magro, cabelos longos e desgrenhados caindo pelos ombros, abaixou-se até o chão e começou a farejar como um verdadeiro perdigueiro. Ele falou com um arrastado sotaque carioca, desses que só se vê em novelas:

– É brother… passaram por aqui sim. Estão deixando uma trilha tão fácil de seguir que até mesmo o mais jojolão dos rastreadores pode seguir.

– Sem kaô para cima de mim. Não estou querendo levar uma vaca nessa não. Você vem bancando o casca grossa desde que saímos atrás desse grupo, mas ainda assim só nos leva para bottons vazios. – disse um segundo, com o cabelo completamente molhado, carregando o que parecia uma enorme prancha de surfe nas costas.

– Tô dizendo! Sem caldo aqui. É só fungar o chão e você vai ver!

– Se é assim, vamos confiar na sua palavra brother. Mas se você errar de novo vai ficar longe do pico por um bom tempo. – O terceiro deles, o maior de todos, tomou a palavra. Parecia realmente assustador, com uma enorme barba loira emoldurando o rosto largo e a boca cheia de dentes pontiagudos. – Vamos que tá na hora arrebentar!

Os novos heróis do Olimpo – Capítulo 22

Entre semideuses e lobos.

Embora a rajada de energia não tivesse sido tão impressionante quanto a que usou contra Zeus, Oliver sabia que o golpe tinha surtido mais efeito do que qualquer das caçadoras de recompensa queria admitir. A líder delas demoraria a voltar ao campo de batalha, pelo menos tempo o bastante para que ele resgatasse Nathália. Ele correu entre as poças de água se colocando ao lado da jovem.

Ela respirava com dificuldade, com o peito chiando quando ela inspirava, efeito secundário das costelas quebradas, com certeza. Estava desmaiada. Oliver vasculhou os bolsos em busca do frasco de ambrosia que trazia sempre consigo. Era do tipo comum, que Roberto sempre carregava consigo o tempo todo, e ele esperava que fosse o bastante para colocar Nathália de pé. Afinal de contas não ia demorar para que o lugar estivesse coalhado de semideusas virgens vingativas. Enquanto administrava os primeiros socorros a mente de Oliver devaneou até vinte minutos antes, quando sentiu o desejo irresistível de seguir Nathália e Hyparsia a uma distância segura. A distância garantiu que nenhuma das duas o visse, mas não permitiu que ele chegasse a tempo de impedir que a amiga fosse brutalmente espancada. Não sabia ainda porque tinha vindo, mas julgava que tinha algo a ver com a tatuagem mágica que partilhavam.

– Será que os outros sentiram a mesma coisa? – perguntou ele enquanto enfaixava a cabeça da amiga. Ela tinha tomado a ambrosia e Oliver podia ver seus efeitos como num filme do Wolverine: as feridas estevam fechando a olho nu, deixando apenas algumas leves cicatrizes. Ele precisava apenas de mais alguns minutos. Minutos que lhe faltaram quando ouviu o ronco dos motores se aproximando.

Eram as companheiras de Hyparsia. Duas das três. Elas o circundavam de longe, como tubarões espreitando a sua presa. Uma delas trazia nas mãos uma corrente e a outra trazia o que parecia uma lança curta que mais parecia um tipo de arpão. A distância podia ver Hyparsia voltando, carregando nas mãos o que sobrara da sua jaqueta de couro. Mesmo com a chuva e naquela distância Oliver sabia que ela estava possessa. Ele guardou o resto da ambrosia e ficou em posição de luta. Um relâmpago rasgou o céu, como se protestasse quando ele sacou sua espada novamente. Era a mesma espada, mas um pouco diferente. Ela estava mais agressiva, com um toque de crueldade maculando seu design simples e belo. O semblante de Oliver também ganhou contornos soturnos a medida que ele foi andando em direção ás motoqueiras.

Era possível sentir a tensão no ar. Cada passada do rapaz ecoava pelo campo apesar do barulho dos motores e da chuva. A névoa fraquejava em suas vistas, deixando a cena o mais real que ela podia fazer. O ar crepitava de ansiedade. Uma das motoqueiras arremeteu sua moto-lobo na direção do menino, o ronco do seu motor substituído por um uivo selvagem, capaz de gelar a alma do mais valoroso dos combatentes.  Ela girava a corrente bem no alto. Sua intenção era atropelar Oliver e se ele se desviasse para qualquer lado atacar com a corrente. Teria funcionado se Oliver não tivesse tido as aulas com Karine. Aquela manobra era velha conhecida dos filhos de Ares e Oliver conhecia pelo menos dois modos de sair dela. Mas ele não agiu de nenhuma das maneiras que ele pensava. Num instante a sua mente ficou em branco, e ele simplesmente agiu. Ou melhor, sua espada agia por ele. A rajada de energia atingiu o lobo na testa, fazendo-o parar bruscamente e jogando a motoqueira para frente, como se tivesse sido arremetida de uma catapulta.

A menina motoqueira com a corrente deve ter voado uns bons dez metros sem controle no ar, até que se dobrou sobre si mesma e, imitando uma ginasta olímpica em meio aos exercícios de solo, pousou sobre a grama enlameada do descampado, deslizando até parar com segurança do outro lado. A segunda delas apontou o arpão para cima e Oliver sentiu o ar se encher de energia. Uma descarga elétrica desceu do céu, errando seu alvo por pouco. Oliver então percebera que a menina tinha o mesmo semblante altivo e superior de Zeus. Enfrentava uma de suas filhas neste exato momento. A menina sorriu satisfeita, os cabelos longos, molhados e esvoaçados pelo vento que começara a soprar emprestavam a seu rosto uma expressão madura e concentrada. As nuvens começaram a ficar densas. Era claro que preparava outro raio. E dessa vez Oliver talvez não fosse rápido o bastante.  Não que ele pudesse realmente se preocupar com isso, já que a moça das correntes estava a ataca-lo mais uma vez.

Ela combatia a meia distância, usando a corrente para manter Oliver ocupado. “ela está ganhando tempo para a outra atacar você com o raio”, Oliver ouviu a voz na sua cabeça. Já tinha ouvido aquela voz antes, mas era quase como um sussurro e sempre com palavras curtas que o incentivavam a continuar quando estava para fraquejar. Era a primeira vez que a voz lhe falava com tanta potência. Potência que o distraiu, a um preço bem caro. Um dos ataques da corrente atou-se a seu braço esquerdo. O puxão foi imediato e ele foi arrancado do chão com muita força, caindo de cara na lama. O ombro explodia em dor. Estaria deslocado? Quebrado? Oliver ergueu a cabeça a tempo de esquivar do pisão de Hyparsia. A motoqueira tinha se aproximado mais rápido do que ele previa e atacava com ferocidade. A espada fora arrancada de sua mão com um chute no antebraço. Antes de tocar o chão a lâmina especial desparecera em pleno ar. Oliver desesperou-se. Sem a espada ele era menos que um nerd que a uma semana começara a ter aulas de artes marciais. Não era páreo para um briga num pátio de escola, o que dizer enfrentar três caçadoras experientes e armadas? Fez o melhor que pode para se defender, mas os golpes de Hypersia insistiam em atingi-lo. Nenhuma sequencia espetacular como a que ela usara em Nathália. Ela estava ferida sim, um dos braços parecia quebrado pelo modo que pendia ao longo do corpo, mas isso não a impedia de atacar. E a cada soco que levava, mais perto da inconsciência Oliver chegava.

“Maldito seja moleque!” a voz ecoou novamente na sua mente. “Liberte-me: deixe que eu lute esta batalha ou nós dois vamos morrer”. Oliver estava confuso. Mal conseguia raciocinar. “Diga meu nome… você já fez isso antes. Diga meu nome e deixe que proteja sua amiga”. Oliver relutou. Algo dentro dele dizia que era melhor morrer do que libertar todo o poder da espada. Quem sabe o melhor fosse desistir e deixar que a inconsciência o levasse embora. Mas o seu corpo ansiava por viver. Ele queria viver. Uma chama despertou dentro dele quando a voz deu sua última cartada: “me deixe sair, ou jamais verá sua mãe novamente”.

Hyparsia ergueu o corpo quase desacordado do semideus do chão, pela gola da camisa. Ergueu alto como se portasse um troféu. A chuva molhava ambos, limpado o sangue do rosto de Oliver. Se sobrevivesse ia acordar com o rosto muito machucado. Eis que ela se assustou quando o menino abriu os olhos, tomados de pura fúria, e com os dois pés chutou Hyprsia no peito, libertando-se de seu agarro. A espada ressurgiu em seu punho, ainda mais ameaçadora e cruel que antes. O menino tombou a cabeça para o lado e gargalhou inumanamente.

Uma das motoqueiras arremeteu sobre ele. A corrente estava enrolada em seu braço, como se fosse uma luva de aço. O movimento do menino foi fluído e veloz, esquivando do ataque e cortando o baço da moça, pouco acima do cotovelo. A menina caiu no chão, berrando de puro pânico e dor, agarrada ao coto do braço que sangrava profusamente.  Num piscar de olhos Oliver estava sobre ela. Ele agarrou o braço decepado do chão e bateu na menina pelo menos duas vezes antes dela desmaiar. Ele olhou para Hyparsia e para a filha de Zeus, ambas petrificadas de terror. Num movimento rápido ele arremeteu-se para frente, golpeado com rapidez inumana.

– Pelos deuses! – gritou Hyparsia – ataque agora Kleynna!

– Mas estamos muito perto… – reclamou a filha de Zeus antes de tomar a decisão de atacar. O ar crepitou em volta dela e o relâmpago desceu dos céus, atingindo com força o seu arpão. No mesmo instante ela direcionou o arpão para Oliver e gritou – frágma vronterí!

O menino pareceu ficar sem ação por um segundo e depois uma sequencia de vários raios abate-se sobre ele. Uma sucessão brilhante de pelo menos uma dúzia de raios caiu sobre ele, o som dos trovões ensurdecendo tudo a volta de todos e a sucessão de flashes tão ardentes quanto olhar diretamente para o próprio sol. A onda de choque dos ataques foi o bastante para varrer tudo num raio de 20 metros do campo de batalha, criando um semicírculo de mato queimado e terra cozida. No centro dele, Oliver estava de pé. A espada agora não estava sozinha. Seu braço direito e ombro estava cobertos por uma meia armadura que parecia feita de fragmentos de diamante colados com fios de ouro. Espinhos finos nasciam em toda extensão do braço, como se lembrassem da natureza guerreira e perigosa da armadura.

O menino não mais gargalhava. Ele andou devagar até Kleynna. A menina respirava com dificuldade. O golpe especial que usava drenara toda a sua energia. Era um milagre ter sobrevivido. Oliver ergueu a espada e golpeou com força.

– Não! – gritou Hyparsia. Sua visão borrou por um instante e ela viu a espada parada a poucos centímetros do pescoço da companheira. Ela viu o rosto do menino se contorcendo, como uma pessoa que está tentando a todo custo acordar-se de um pesadelo. Ela retirou do bolso um apito e soprou com força, embora não produzisse qualquer som. As moto-lobos atravessaram velozmente o campo de batalha, cada um pegando a sua amazona, partindo em seguida. – Nos encontraremos de novo, jurou Hyparsia enquanto que ela e suas companheiras rumavam para fora do alcance do menino.

Oliver finalmente abriu os olhos. Na frente dele estava um rapaz. Ele tinha pouco mais que sua idade. Era impossível não notar a semelhança. Um filho de Astréia, como ele. Mas muito antigo, como se fosse um eco de um passado longínquo. Os cabelos longos emolduravam com selvageria o rosto magro e o tapa-olho de cor preta lhe emprestava um ar sinistro. Ele falou em grego, mas Oliver compreendeu perfeitamente em português:

– Cedo ou tarde você vai ter de me deixar sair irmãozinho. Essa é a maldição da espada.

Tudo ficou escuro e Oliver ouviu outra voz, dessa vez mais conhecida e amiga:

– Aguenta firme, irmão. Você está comigo e nada de errado vai acontecer!

– Eu sei. – a voz de Oliver sumiu num sussurro enquanto ele desfalecia nos braços de Eric.

Os novos heróis do Olimpo – Capítulo 21

A irmandade das motoqueiras caçadoras de Artemis

A primeira parada da viagem foi num posto de gasolina na cidade de Unaí, distante cerca de 60 km do Distrito Federal. Pararam num posto logo na entrada da cidade e estacinaram por atrás da borracharia. O objetivo era “desadesivar” o carro da Giges para que levantassem menos suspeitas durante o caminho. Enquanto trabalhavam no carro Oliver traçava as rotas de viagem, baseadas no consumo esperado de gasolina da caminhonete. Nathália trabalhava ao seu lado reorganizando as malas e fazendo um inventário dos mantimentos. Havia ao seu lado esquerdo uma pilha de roupas que seria desovada num brechó do outro lado da rua – assim que ele abrisse, claro –  e se isso não fosse possível seriam sumariamente queimadas.

– Mas essa camiseta é oficial do Resident Evil Chronicles, versão deluxe. Você não pode tocar fogo nela. – protestou Eric ao ver sua camiseta na pilha de descartes.

– Você já tem camisetas demais. Precisamos nos manter leves para nos movimentarmos com mais rapidez. Não podemos nos dar ao luxo de carregar excesso de peso: só nos atrasaria e nos cansaria – Nathália dardejou um olhar para Oliver que não percebeu, ou fez que não percebeu, a entonação da guerreira. Ao pegar a mochila de Oliver ela começou a tirar coisas de dentro e parecia que não tinha mais fim. Por fim tinha uma pilha tão grande quanto a pilha de descarte e a mochila ainda pesava o mesmo em sua mão. Por fim ela exclamou – Uma bolsa mágica. Podemos colocar todos os nossos itens aqui e não pesaria um grama a mais. Você não disse que tinha um item tão poderoso e valioso.

Oliver pareceu sair do torpor do seu tablet. Ele olhou espantado como se quisesse compreender a situação. Por fim mostrou-se espantado. Tentou explicar que a mochila pertencera a seu pai e que não sabia de suas propriedades mágicas. Por fim concluíram que apesar de ser um item muito valioso, não era assim tão especial: colocar todos os ovos no mesmo cesto poderia ser um grande erro.

Por fim seguiram com o plano original, vendendo os itens de vestuário que não precisavam. Suas bolsas ficaram em média ¼ mais leves. E cada pedaço de leveza conquistado faria diferença na hora de uma nova corrida enlouquecida pelo meio do mundo. Com o dinheiro obtido abasteceram o carro e compraram comida que poderia ser consumida na estrada sem que precisassem parar: barrinhas de cereal, palitos de carne seca, água mineral, isotônico e energético em forma de gel. Fizeram uma prece silenciosa aos deuses antes de procederam pela estrada.

Durante o caminho combinaram que apesar de ser o melhor motorista do grupo Eric não poderia guia-los até Fortaleza sem interrupções. Era uma viagem com mais de trinta horas de estrada, sem contar os imprevisíveis, mas certos, desvios que teriam de fazer. Eric caberia o papel de a cada duas ou três horas de viagem troca de lugar com outro motorista. Além de descansar, poupando-se para momentos realmente necessários, Eric agregaria mais capacidade ao grupo, ensinando-os a dirigir. Oliver tinha alguma experiência com carros, graças a um tutor inglês apaixonado por carros. Mas para os outros seria a primeira experiência atrás de um volante de carro. Com pouco mais de quatro horas de viagem e a primeira aula de direção de Lucas a caminhonete avistou uma placa na estrada que dizia que a cidade de Posse – GO estava próxima, algo como 10 km. Já tinham vencido quase trezentos quilômetros de viagem quando Eric percebeu que o combustível estava perigosamente baixo.

– Tem alguma coisa errada com o carro – ele comentou enquanto Lucas esforçava-se para manter o carro reto, na velocidade entre 70-90km/h – e não é o motorista.

Jade riu discretamente definitivamente mais acostumada com o bom humor irônico do amigo. Se Nathália achou engraçado ou não, ela não demonstrou, mas sua expressão passou de serena para preocupada assim que o filho de Hermes terminou a frase.

– De todos os carros da Giges estacionados lá escolher o que estava realmente precisando de manutenção era realmente uma jogada muito cruel de Moros, deus da sorte. – ela comentou sem esconder a frustração.

– Bom, nem tudo está perdido – disse Oliver, elevando a voz para ser ouvido do fundo da caminhonete. – pelo meu mapa tem um posto a seguir, na cidade de Posse. O nome do posto é… – ele olhou uns segundos no frank antes de responder com certeza – Veredas. Posto Veredas, bem na entrada da cidade. Rodovia GO-446 – acrescentou como se dizer o endereço do posto tornasse mais fácil visualizar a sua localização.  – Lá tem uma mecânica especializada em caminhões, tratores e caminhonetes.

– Soa como um plano para mim – disse Nathália satisfeita, logo em seguida recebendo a anuência de todos os demais ocupantes do veículo, menos Lucas…

– Eu acho que deveríamos…

– Não vamos voltar ao santuário Lucas! – a resposta em uníssono fez o filho de Demeter encolher os ombros. Ele vinha tentando, sem sucesso, trazer os amigos à compreensão de que sua missão fracassara e que eles tinham de voltar para a segurança do santuário. No entanto seus apelos esbarraram em ouvidos surdos ao que ele chamava de razão.

Levou menos de vinte minutos para chegarem no posto, usando o frank como GPS. Combinaram que como Eric e jade pareciam os mais velhos, seriam eles os escolhidos para levar o carro ao mecânico. Um casal jovem chamaria menos atenção do que um grupo de cinco adolescentes. O restante do grupo resolveu ficar num restaurante/mercadinho/churrascaria que ficava ao lado do posto. Oliver deu a Eric um velho celular Siemens A50 para que ele se comunicasse com o grupo e desse noções do que estava acontecendo. O celular não tinha créditos para ligar, mas mandava mensagens muito bem – incluindo um corretor ortográfico que parecia ter sido feito pensando em pessoas com dislexia.

Ao chegarem no restaurante Oliver pediu uma porção de fritas e uma vitamina de morango. Nathália pediu uma coca light e um Cheese-bacon com salada e muito molho barbecue. Ela se encantou com um vidro de pimenta que era usado como tempero de mesa. Só o cheiro da pimenta já fazia os olhos de Oliver encher-se de lágrimas. Lucas preferiu tomar apenas um suco. Era claro que de todos era o que estava menos a vontade naquele ambiente.

Não demorou muito a conversa dos meninos cessou e deu lugar ao marasmo que os restaurantes de beira de estrada proporcionam. Não havia nada de interessante para ver e a julgar pela última mensagem de Eric precisariam trocar o tanque de combustível que estava uma rachadura complicada de soldar. O conserto deveria durar uns dois dias, mas só Zeus sabe como, Eric conseguiu que o mecânico trabalhasse a toda velocidade. Estimava que em cinco ou seis horas estariam seguindo viagem. Ambos, Eric e Jade estavam bancando os ajudantes o que facilitaria e muito o conserto.

De repente suas atenções se voltaram para um grupo de quatro motoqueiras. Vestiam couro preto dos pés a cabeça. Montadas em motos harley-davidson, modelos easy rider. Oliver sentiu uma breve tontura já conhecida. Forçou a vista e percebeu que não estavam montadas em motos e sim em ferozes lobos negros enormes. A névoa fazia com que parecessem motos. Não apenas isso: faziam com que suas ocupantes parecessem maiores do que realmente eram. A mais velha não parecia ter mais que dezessete anos e a mais nova não parecia ter nem mesmo catorze. Aproximaram-se o bastante para que Lucas conseguisse ler as inscrições em grego de suas jaquetas: Irmandade das Caçadoras do Asfalto de Artemis – capítulo Centro-oeste.

As motos-lobos pararam no estacionamento ao lado do restaurante e as quatro desceram, sendo que a menor delas desceu com dificuldades, mancando. Ela foi aparada por duas companheiras e levada a sentar-se numa cadeira perto da mesa dos meninos. Nathália encarou a mais velha delas e a saudou:

– Abençoado os deuses antigos e todos os seus servos.

– Eu honro você ao longo do caminho, não importa onde você esteja. – foi a resposta da motoqueira.

Olhando mais de perto era uma moça alta e magra. Tinha o cabelo curto e encaracolado, na altura das orelhas, penteado meio de lado. A pele era clara e sapecada com sardas. O nariz de bolinha parecia um pouco deslocado no rosto longo e de expressão severa. Os olhos castanhos escuros pareciam inflexíveis e atentos. Ela parou estendendo o braço numa clara resposta à saudação de Nathália.

– Eu sou Hyparsia. A vice-comandante das Irmandade das Motoqueiras Caçadoras de Artemis. Eu e minhas irmãs buscamos abrigo e comida por uma tarde. Não tencionamos nos intrometer em seus assuntos a não ser que sejamos convidadas ou obrigadas ou que nossos caminhos se cruzem.

Por um momento Nathália ponderou sobre as apalavras da motoqueira. Já tinha visto as alegadas filhas de Artemis. Não que a deusa fosse realmente a mãe biológica delas. A tradição dizia que Artemis e suas servas eram todas virgens. O que acontecia é que ela aceitava filhas de outras divindades como se fossem suas. Era uma espécie de clube da Luluzinha das filhas virgens dos deuses. Por um momento agradeceu silenciosamente a todos os deuses que Eric não estivesse ali. As perguntas do rapaz, normalmente impertinentes e irônicas poderiam resultar numa crise a qual Nathália queria mesmo distância.

– Eu sou Nathália, filha do poderoso deus da Guerra. Sou a líder do chalé de Ares e estes são meus companheiros do Santuário do Vale do Amanhecer. – Lucas sorriu e pronunciou seu nome baixinho enquanto Oliver olhava com espanto. Por fim ele mesmo se apresentou de forma lacônica, deixando claro que tinham mais dois amigos que não tardariam, muito, a chegar.

– E o que trazem os protegidos do Santuário a esta parte selvagem do Goiás? – disse Hyparsia depois de pedir uma cerveja ao garçom.

– Estamos numa missão para os deuses. Salvar o mundo dos gigantes e coisas assim. Trivial. E você? – Oliver parecia querer compensar a falta do amigo Eric para desespero de Nathália.

Hyparsia olhou os dois de cima a baixo, como se estivesse perscrutando os dois em busca de alguma incoerência. Depois deu de ombros quando a cerveja chegou.

– Vi que uma das suas está ferida. É grave? – o tom de Lucas pareceu preocupado. Nathália olhou reprovadora para ele. Por que se meter com as semideusas mais perigosas desde as amazonas?

– Ela vai ficar boa. Mas se vocês tiverem ambrosia, ficarei feliz de comprar. Pago bem. – disse ela despejando um punhado de douradas dracmas na mesa.

– Assim você nos ofende. Somos ambos servos dos deuses. Hoje ajudamos você e amanha você ajudará um de nós. – Nathália era pura gentileza, coisa que Oliver e Lucas estavam estranhando. Ela pegou uma garrafa térmica da bolsa e despejou não mais que um dedo de um líquido alaranjado, viscoso. Depois pediu ao garçom um pouco de água mineral gelada. Misturou o conteúdo do copo com a água mineral. Espumou um pouco como se tivesse cheio de pó efervescente. Pediu que dessem de beber à menina ferida. Tão logo ela bebeu a cor voltou a seu rosto. Nathália sorriu olhando para Oliver e Lucas como se dissesse que “Jade não é a única com truques de cura”. – Isso é néctar de ambrosia concentrado.

– Impressionante. – foi tudo o que Hyparsia falou. Logo depois as duas estavam conversando animadamente e Nath até resolveu experimentar um pouco da cerveja. Fez cara feia nos primeiros goles, mas logo começou a competir de entornar copos com a recém-descoberta amiga.

Após algumas cervejas Hyparsia convidou Nathália para um passeio pelos arredores do posto. Ela já estava um pouco alta pela cerveja e não viu nenhum mal nisso. Oliver por sua vez estava entretido ouvindo as histórias das caçadoras, sobre suas caçadas e troféus. Num canto, sentado debaixo de um cajuzeiro Lucas dormia o sono que apenas os justos ou os muito cansados podem ter.

Afastaram-se cerca de vinte minutos do posto. Era um descampado largo, espaçoso e afastado da estrada. Por fim Natháia falou:

– Tenho uma pergunta para você. Existe em suas fileiras uma caçadora de nome Verônica? – Nathália falou em tom firme, como se sua força de vontade estivesse expulsando toda a bebida de seu organismo.  Por sua vez Hyparsia engasgou, como se tivesse engolido cerveja pelo nariz.

– Não gosto do seu tom – ponderou Hyparsia, visivelmente consternada. Era claro que a filha de Ares tinha pisado num calo doloroso e delicado. – é melhor que encerremos o nosso passeio e voltemos, assim cada uma a seu caminho.

– Não gosta do meu tom ou não quer dar a resposta da minha pergunta? Talvez saiba, mas se faz de desentendida. Vou perguntar mais uma vez – disse Nathália crispando o punho desafiadoramente em direção à motoqueira – e espero, em nome dos deuses que você pondere bem antes de responder algo que eu não vá gostar.

– Está me ameaçando, cadela? – a voz de Hyparsia ficou firme como o aço. – Os assuntos das caçadoras não dizem respeito a uma fedelha como você. Você me olha e vê apenas uma moça de pouco mais de vinte anos, mas tenho idade para ser sua mãe. Em nome do favor que você fez à minha amiga eu vou poupar a sua vida, mas não espere que eu seja gentil: você merece uma boa surra para aprender a se portar. Cale sua boca e saia do meu caminho antes que eu mesma tenha de arrasta-la inconsciente até seus amigos.

As duas se encararam no que, no cinema, era chamado de duelo com os olhos. O tempo foi fechando em volta delas e a chuva fina começou, logo dando lugar a uma chuva torrencial, grossa, com trovões arrebentando para todos os lados.

Nathália não esperou nova provocação e correu na direção da motoqueira. Esperava que seus poderes recém-descobertos fossem o bastante para vencer as décadas de experiência que aquela caçadora tinha. Ela tentou agarrar Hyparsia, numa manobra de luta livre americana. Estranhamente Hyparsia não tentou se esquivar e apenas abaixou a cabeça e encolheu os ombros. Só tarde demais Nathália percebeu que tinha caído no golpe da caçadora.

A cabeçada veio veloz como um jab e fez Nathália dobrar-se para trás, o queixo e os dentes doendo enquanto sua boca se enchia de sangue. Mas o seu movimento foi interrompido quando ela foi violentamente agarrada pelas orelhas e pelos tufos de cabelo nas imediações. A cabeça bruscamente puxada para baixo encontrou parada na joelhada certeira de Hyparsia. Agora o nariz de Nathália também estava sangrando, enchendo suas vias aéreas de sangue grosso. Ela posicionou o pé para trás tentando clarear a cabeça quando sentiu o ar ser expelido brutalmente de seus pulmões: o gancho, no melhor estilo uppercut, fez com que ela se se dobrasse para frente, o corpo ansiando desesperadamente por respirar ar. As costas arqueadas foram o alvo de duas cotoveladas e um chute bem dado no joelho esquerdo fez Nathália cair ao solo. A seção de chutes começou como uma chuva de granizo, vindo em todas as direções, mas concentrando-se hora nas costas, hora no peito de Nathália. Por fim, entre as costelas quebradas, o nariz esmagado e o maxilar dolorido Nathália abandonou a consciência quando o último chute acertou sua bochecha esquerda. Sobre ela Hyparsia tomou fôlego e preparou-se para dar mais um último golpe.

A rajada de energia rasgou o ar arremetendo a motoqueira uma centena de metros para longe da guerreira caída. Do outro lado do descampado a espada de Oliver brilhava inconfundível. A luta de verdade parecia que ia começar.

Os novos heróis do Olimpo – Capítulo 20

Invadindo a cova do gigante.

– Explica de novo irmão. Faz favor que minha mente deve estar derretendo com esse calor todo. – Eric se abanava com uma tampa plástica, já fazia uns três minutos. Oliver olhou para ele e com uma recém-descoberta paciência explicou tudo de novo.

– Existe um posto avançado da Giges a algumas quadras daqui. É um depósito de equipamentos de segurança e veículos. Podemos entrar, pegar um dos carros deles, de preferência um de seus picapes duas cabines com ar condicionado e rumar pela estrada. Quando descobrirem vãos estar tão longe que nem vão poder nos procurar. Eu mesmo posso hackear o computador deles e colocar o carro que levamos como “em manutenção”. Podemos fazer isso sim. Tenho certeza.

Todos estavam olhando para ele, como alunos observando uma aula dada por um verdadeiro artista do saber. Ele mesmo se sentia um verdadeiro expert em invasões como aqueles tipos que faturam milhões de dólares nos filmes. Por fim ele continuou.

– O melhor plano de ação é entrar de fininho, perto das três da manhã. Não tem ninguém na rua e os dois vigias vão estar bem cansados. Entramos, nocauteamos os guardas e saímos sem levantar suspeitas.

– E vamos esperar até as três da matina para fazer isso? Como ter certeza que eles não estão esperando por nós lá? Acho que devemos dar um jeito de voltar ao santuário… – Lucas parecia pouco à vontade com a ideia de entrar sorrateiramente em algum lugar e roubar, mesmo que fosse de um inimigo declarado do santuário.

– Não seja covarde, Lucas. Temos uma missão a cumprir e irmãos para vingar. – a voz de Nathália soou grave e estranhamente satisfeita pela antecipação da batalha – Podemos finalmente levar a batalha para os canalhas. Vamos partir para a ofensiva ao invés de ficarmos apenas no nosso canto, nos defendendo. Mas a espera me deixa ansiosa. Por que não atacamos já?

– Acho que o sangue de Ares está subindo sua cabeça, Nath. Você nunca leu livros de estratégia? O nome Sun Tzu não significa nada para você? Estou com o Oliver. O plano dele é bom e tem plenas chances de dar certo. Vamos sentar e esperar. Não somos os deuses que tem põem resolver tudo com um estalar de dedos. Somos semideuses. Meio deuses, meio humanos, lembra-se? – a voz de Jade soou objetiva. Por um momento parecia que a tensão entre as duas estava crescendo.

Eric pôs a mão no ombro de Nathália. Ela se virou rápida, reflexos de combate à flor da pele. Encarou o rosto do jovem, sereno, com um meio sorriso nos lábios. Ele respirava devagar, quase um sussurro. Tudo no corpo dele dizia para que ela mantivesse a calma. La estava olhando para ele, incapaz de desviar o olhar. Então ele se inclinou sobre ela e mostrou a língua, dando um empurrão na menina. Nath caiu para trás tropeçando em Oliver. Logo, ele e Eric explodiram em risadas. Jade cobriu os olhos esperando pelo pior. A expressão de Nathália foi mudando, ficando cada vez mais inchada até que ela também explodiu em risadas.

– Ora, se eu pegar vocês, vou fazer vocês de picadinho e vou dar para os cães dos tártaros comerem! Voltem aqui! – ela corria de forma espaçada, obviamente adotando a brincadeira dos dois. Pegou um monte de barro do chão, puxou a parte traseira do calção de Eric e lá depositou o monte. O sentir o frio de o barro úmido descer pela parte traseira Eric pulou como um irlandês dançando alguma animada música tradicional. Oliver teve um destino tão ruim quando já que sem esforço Nath o imobilizou sentando sobre a sua barriga e peito, fazendo peso sobre o menino. Perguntava sempre quem era a semideusa mais poderosa do Olimpo e como Oliver não respondia seu nome ela continuava. De repente ele respondeu “o Sr. Dezan”. Todos caíram na gargalhada. Mesmo Lucas riu um pouco alto.

O clima descontraído deu-se até a noite, quando fizeram um jantar improvisado e fecharam os últimos detalhes da invasão.

– Eu já invadi as câmeras deles. Eles têm três homens por turno. Um intendente que fica no computador e dois seguranças armados. Uma vez por hora eles fazem a ronda em torno do prédio, que dura 20 minutos. Neste momento podemos entrar, pegar um dos carros e sair pelo portão principal. Eu acho que essa caminhonete aqui é perfeita – Era um modelo S10, cabine dupla estendida, do ano passado. – Ela tem adesivos discretos que podemos tirar com pouco trabalho. Imagino que Eric seja capaz de pilotar uma dessas sem nenhum aborrecimento.

– E as chaves? – perguntou Jade.

– Não vamos precisar – disse Eric que passara um bom pedaço da tarde explorando o clube em ruínas e trazia nas mãos uma meia dúzia de cadeados diferentes.  Ele aproveitou um fio de arame esticado e colocou todos os cadeados nele. Depois pegou no primeiro. Segurou por uns segundos e puxou. O cadeado abriu como se estivesse sendo aberto com sua própria chave. E foi assim como todos os outros. Uns demoravam um pouco mais para abrir, mas no final abriram todos. Por fim exclamou satisfeito: – Não existem fechaduras e trancas para o rei das fechaduras.

Oliver ficou satisfeito com as habilidades do colega. Nathália comentou que era uma habilidade útil a um batedor e espião, enchendo Eric de um orgulho meio zero-zero-sete. Lucas manteve-se indiferente e Jade tentou esconder, sem muito sucesso, que também estava impressionada com as habilidades do companheiro.

Com o fim do dia resolveram descansar, tomando turnos de vigia até as duas da manhã, quando rumariam para o depósito da Giges. Nathália organizou os turnos de modo que ninguém ficava realmente sozinho enquanto vigiava. Para que o sistema funcionasse ela começaria a vigília, sendo auxiliada por um segundo membro e depois rendida por um terceiro. Um sistema simples de ciclos a colocou primeiro com Lucas e depois a colocou no final de volta com Oliver. Ela sentou-se ao lado dele, no final da vigília, pouco mais de meia hora antes de acordar todos.

– Tudo certo? – perguntou ela enquanto afiava a sua espada.

– Espero que sim. Espero também que não precisemos usar essas armas. – disse ele em tom casual.

– Bom, nem todo mundo pode carregar uma arma poderosa como o raio de Zeus na palma das mãos. Para o resto de nós que precisa se preocupar em portar espadas e escudos, ter suas ferramentas de trabalho em bom estado é indispensável. – Oliver pensou instintivamente nos soldados romanos, de um documentário que vira anos atrás do History Chanel inglês. Só então percebeu que a espada de Nahália era romana. Uma versão um pouco maior que um gládio. Ao contrário de Jade e Lucas, que usavam adagas e equipamento nitidamente grego.

– Alguns de nós são armas mortais naturais. Não precisam de armas. A sua natureza é ser uma arma. – ele filosofou, como que tentasse dar fim à conversa.

– Aceito o elogio filho da dama das estrelas. – Nathália suspirou e olhou para o céu estrelado e sem nuvens da capital federal. O ar estava seco e o clima frio.  Da fogueira que tinham acendido mais cedo restava apenas um punhado de brasas bruxuleantes, de onde emanava um calorzinho fraco, incapaz de vencer o frio. Instintivamente ela se aninhou ao lado de Oliver. Ela percebeu o desconforto do rapaz e acrescentou: – Não tenha qualquer ideia, filho das estrelas. Quero apenas espantar o frio.

Oliver concordou estoicamente. Num primeiro momento a proximidade com a companheira o deixou incomodado, mas minutos depois ele percebeu que era uma sensação boa. Nathália tinha uma beleza selvagem, um tanto bruta, como uma leoa pronta para estraçalhar sua presa. Poucos minutos depois o menino começou a perceber a doçura do seu hálito e o seu perfume. Não se parecia com nenhum cheiro que estava acostumado a sentir vindo de mulheres. Era diferente, discreto e ainda assim único.

Finalmente chegou a hora da invasão. A fogueira fora apagada com uma pá de barro fresco e eles se puseram em marcha silenciosa pela noite fria. Nathália os levou através de ruelas e descampados, evitando habilmente postes, ruas bem iluminadas e patrulhas noturnas. Chegaram ao deposito da Giges em pouco mais de dez minutos de marcha. Ela ficava no final de uma rua sem saída, num descampado isolado. Parecia um velho armazém da Conab, deslocado da zona rural. Não havia casas em volta e a única construção digna de nota nas redondezas era um posto de saúde comunitário móvel instalado num trailer. O perímetro era cercado por uma cerca de arame trançado, com pouco mais de dois metros de altura. No alto da cerca, três carreiras de arame farpado davam a volta, intercalados a cada dezena de metros por uma placa amarela que dizia “cuidado: cerca elétrica”. Não havia postes com câmeras e nem mesmo detectores de movimento. A cerca se estendia por cerca de 250 metros antes de fazer a curva. Do lado de dentro, entre a cerca e o prédio principal do depósito havia uma estada pavimentada, grande o bastante para permitir a passagem de um caminhão.

Não demorou muito viram dois seguranças dentro de um carrinho de golfe passando devagar pelo lado de dentro da cerca. Um deles dirigia e o outro ia iluminando em volta com um holofote montado no carrinho. Tinham expressão de sono e portavam nas cinturas pistolas automáticas. Lucas espremeu os olhos tentando ver com mais clareza através da Névoa e comentou em voz baixa que não eram humanos. Quando o carro passou perto o bastante para que todos pudessem ver, perceberam que o menino dissera a verdade. Eram os mesmos caras do aeroporto: cães enormes em forma mais ou menos humana, usando roupas e coletes. Um deles levantou a cabeça pareceu farejar o ar, mas não demonstrou nenhum interesse. Continuou o seu caminho sem olhar para trás. Nathália correu em direção à cerca, encostou as costas nela e se ajoelhou, juntando as mãos na posição de estribo. Jade veio correndo logo depois e usou o apoio da amiga para, habilmente, saltar sobre o arame farpado. Ela caiu silenciosamente, como um gato indo se refugiar numa reentrância da parede do depósito. Eric era o seguinte. Ele correu e também usou o apoio de Nathália, mas sem a mesma habilidade felina de Jade. Seu pouso só não foi mais desastrado porque ele foi absolutamente cômico. Pelo menos Jade teve de segurar o riso quando ele se levantou e andou mancando até ela. Nathália flexionou os joelhos e saltou sem esforço para o outro lado. Se Jade era agilidade felina, Nathália era a força bruta em forma de gente. Ela correu para junto dos espantados amigos.

– Você saltou três metros só flexionando os joelhos! – Eric parecia incrédulo.

– Alguns correm rápido, outros são fortes. – Nathália sorriu ao passar pelos dois.

Do outro lado da cerca, protegidos pela sombra de uma salácia, Oliver e Lucas observavam a ação. Eram o grupo de retaguarda e se tudo desse certo não precisariam entrar em ação. Mas Oliver já estava agindo. Neutralizou, por via das dúvidas, todos aos alarmes que pode encontrar que estavam ligados ao computador central da giges. Também colocou a picape que queria como “em manutenção” para que ninguém desse falta dela.

Eric foi até o portão e com um giro de pulsos o destravou. Depois foi até o caro e destravou sua porta também. Foi quando ouviram a porta da frente abrindo. Um segurança cara de cachorro saiu por ela, resmungando em voz alta.

– Maldição. Mas como é que não podemos fumar mais dentro das instalações? Que regra mais idiota!

Ele acendeu o cigarro e passou direto pelo lado onde Jade e Nath estavam escondidas. Ele pareceu farejar o ar, mas continuou o seu caminho. Aquele segurança extra não estava nos planos. Era questão de tempo, minutos na verdade, para que o resto da patrulha voltasse ao ponto de partida. Dali teriam mesmo problemas. O  soldado continuou fumando. Nath fez um sinal silencioso para Jade e depois sacou uma adaga de bronze celestial. Ele foi sorrateiramente até o segurança e com um golpe rápido prendeu o bicho pelo pescoço. Ele se debateu um pouco, mas seu animo arrefeceu quando a adaga perfurou entre suas costelas. Nath o baixou no chão com delicadeza e o arrastou para um ponto cego entre outros dois carros. Com sorte só seria encontrado no dia seguinte. Estranhamente não se desfez em pó imediatamente, mas quando Nathália afastou-se dele ele explodiu numa nuvem de cinzas e poeira.

Eric suspirou aliviado e entrou no carro. A caminhonete estava de tanque cheio e tinha todos os opcionais que Oliver havia prometido. Ia ser uma viagem longa, mas muito confortável até o Ceará. Ele desengatou o carro e chamou as meninas para empurrar o carro enquanto ele manobrava. Jade ficou de guarda enquanto Nath empurrava o carro. De repente a porta do depósito abriu de novo e um segundo segurança passou por ela. Ele viu a cena e puxou a sua arma da cintura pouco antes de ser atingido na testa por Jade. Ao cair no cão sua arma disparou. O tempo da sutileza já tinha passado, definitivamente.

Ele ligou o carro e engatou a ré passando como um raio pelo portão escancarado. Nathália corria logo atrás, espada em punho, como se algum inimigo fosse brotar do chão. Num segundo o carrinho de golfe surgiu no horizonte, virando na lateral do prédio. O cara do holofote vinha falando ao comunicador enquanto o motorista dirigia no limite do que o carrinho podia oferecer. A flechada certeira de jade travou a roda do carro e ele capotou para frente como numa vídeo cassetada. Um dos seguranças saiu de baixo dele, pistola em punho, pronta para disparar quando a rajada de energia o atingiu em cheio, reduzindo-o a pó.

O segundo segurança ouviu alguma coisa no rádio e começou a correr no sentido contrário dos meninos. Jade preparou a flecha e disparou. Dessa vez ele explodiu em pó imediatamente.

– Todo mundo à bordo! – o grito de Eric encheu a rua enquanto ele abria as quatro portas da caminhonete. Todos entraram apressados enquanto Eric dirigia pelas ruas sendo guiado por Nathália. Quando entraram no eixo monumental, em direção para pegar a DF 003 sentido Sobradinho cruzaram com várias viaturas da polícia militar em sentido oposto. Nenhuma pareceu lhes dar atenção e poucos minutos depois estavam seguindo pela estrada, deixando o Distrito Federal para trás.