Entrevista com o Tio Nitro

1 – Olá Nitro e obrigado por ter aceitado esta pequena entrevista. Além de professor de inglês, tradutor, desenhista e escritor de RPG, o que você pode nos contar a seu respeito? Pratica algum esporte? Possui algum hobby?
Sou nerd desde a época que essa palavra não existia, mas, contrário ao arquétipo, sempre fui muito sociável e sempre tive muitos amigos nerds. Tive uma banda de heavy metal por uns cinco anos no início dos anos 90, onde tocava guitarra e fazia o vocal. Toco violão até hoje e curto muito! Em termos de esporte, fiz capoeira por sete anos até ter uma lesão séria no joelho e depois dediquei-me ao akidô por algum tempo. Atualmente frequento a academia diariamente e corro nos fims de semana, no Parque Municipal. Recomendo muito a atividade física, principalmente depois que passamos dos trinta e a velhice vem chegando! :) Curto muito correr e andar no meio do mato, é onde tenho minhas melhores idéias para histórias, jogos de rpg etc.
2 – Bacana.  Soube que estava com um projeto para publicação. Pode nos falar mais dele? E como surgiu a idéia e a oportunidade de escrever o livro?
Tem dois projetos que vão ser publicados, se Bahamut quiser. Um é o Sistema de RPG +2d6, aberto e gratuito, que ganhou o interesse da editora RedBox (a mesma do Old Dragon) em lançar uma versão comercial, com layout e edição profissonais, ilustrações e material extra, mas continuando aberto e com sua versão gratuita. O outro projeto é uma trilogia de romances para o cenário Legião, que irá sair pela editora RedBox. Há tempos que venho conversando com o Mr. Pop (Antônio Sarego, um dos sócios da RedBox) sobre essa possibilidade, e finalmente surgiu a oportunidade. Atualmente estou trabalhando tanto no cenário Legião quanto no primeiro livro da trilogia e estou curtindo muito.
A idéia da trilogia veio de um desejo pessoal de me dedicar mais à literatura. Eu escrevo desde a adolescência, já escrevi roteiros para quadrinhos e desenhos animados e  contos para revistas literárias, etc. Mas muitas vezes eu parava de escrever para me dedicar á produção de material de RPG, como o cenário Necropia, o Mítica: Sombras do Oriente, etc. Porém a vontade de me dedicar mais à literatura sempre estava me chamando. Comecei então a escrever contos maiores, quase livros, para vender pela loja online da Amazon, como ebooks (foi o que eu fiz com a história “Nana Nenê” por exemplo. Eu já havia até esboçado o próximo ebook (que coloco para vender na Amazon mas distribuo de graça também!) quando veio o convite do Mr. Pop. Eu fiz uma proposta para a trama da trilogia, o clima do livro, personagens etc. e ele topou. E agora estou empolgadíssimo com o livro e com o cenário.
3 – Como está a feitura do livro? Alguma história digna de ser contada?
Estamos ainda na faze de construção e consolidação do cenário, apesar de que já comecei a escrever os primeiros capítulos do livro. Essa fase é muito legal, vamos trabalhando idéias e sugestões, vendo problemas e encrencas narrativas com o cenário, alterando a geografia, as raças, etc. até chegar em algo que nos satisfaça. No momento não posso falar muito do cenário, mas ele tem uma pegada militarista e meio apocalíptica, é um mundo em perpétua guerra e muito marcial, com conflitos e tensões em toda sua extensão. Se fosse definir, diria que Legião segue a linha da Fantasia Militarista, como o mangá Berserk ou os romances da Companhia Negra.
Em relação a história do livro, apesar de ter uma trama épica ao longo dos três volumes, meu principal interesse é no desenvolvimento e exploração das almas dos personagens principais. Gosto de escrever focando em personagens, apesar de que minha experiência como mestre influencia muito na montagem da trama das histórias. Personagens interessantes é o que realmente chama atenção em romances de fantasia, pelo menos para mim, e é com esse foco que estou escrevendo os livros.
4 – O que podemos esperar do seu material? O que o diferencia de outros?
Eu espero que a diferença esteja na minha visão e ponto de vista. Estou colocando muita coisa de mim mesmo nesses livros, para deixar uma marca pessoal na história. Ao mesmo tempo é uma narrativa, ou várias narrativas que se entrelaçam em um mundo de fantasia com uma pegada militarista. Assim estou pesquisando muito sobre guerras, a vida militar da idade média, e de como os períodos de guerra afetavam a população, para dar um toque de realismo na história. Mas o meu maior esforço como escritor é com os personagens, o foco da narrativa será os personagens da histópria, é o que eu curto quando leio romances de fantasia: exploração da alma dos personagens. Seus pontos de vista, como eles pensam, o que os motiva, suas razões e irracionalidades, suas emoções. Eu pretendo colocar isso nos livros. E é lógico com uma boa dose de ação, pancadaria épica e horror lovecraftiano! 

Outra coisa que sempre procuro fazer quando escrevo é equilibrar o lado viceral, o cerebral e o emocional das histórias. O lado viceral diz respeito a ação, aos momentos de horror, de terror, de combate. O lado cerebral é a parte da trama, das reviravoltas, dos mistérios, de encaixar as motivações com os eventos, etc. O lado emocional é da vida psíquica e das emoções dos personagens, a irracionalidade das ações, as motivações profundas e inconscientes dos personagens, etc. Os autores que eu admiro conseguem trabalhar de maneira balanceada esses três elementos, e é o que estou procurando fazer com os livros da trilogia Legião.
5 – Quais são suas referências na hora de escrever?
São muitas, muitas mesmo. No campo do horror, o meu autor favorito em termos de estilo é o Clive Barker, o criador dos Livros de Sangue, Hellraiser, etc. Gosto demais de Nancy Collins (Sunglasses After Dark), Dean Kuntz, Peter Straub, Stephen King (claro!) entre vários outros, e dos clássicos Poe, Lovecraft, Ambrose Bierce e Algernon Blackwood.
No campo da fantasia, os autores que mais influenciam são George R.R. Martin, Glen Cook (série Black Company), Steven Eriksen (série Malazan), Robin Hoob (série Farseer), Brandon Sanderson (série Mistborn e o fantástico Elantris), R.A. Salvatore (Icewind Dale Trilogy, etc.), entre outros.
A ficção científica é o tipo de literatura que mais li, principalmente por causa da minha tese de mestrado em literatura Cyberpunk. Sou fã de William Gibson (Neuromancer) e curto tanto autores mais recentes como John Scalzi (Metatropolis é fenomenal), Cory Doctorow, Paolo Bacigalupi (Wind Up Girl é o melhor livro de FC que li nos últimos anos) quanto os clássicos como Frank Herbert (Duna), Isaac Asimov, Arthur C. Clark, Harlan Elison (essse é fodásico!), entre outros.
Sou fascinado por autores clássicos também, como Joyce, Thomas Mann, Victor Hugo,etc. De autores brasileiros sou fanático por Machado de Assis (li quase tudo dele, é muita coisa, até crítica de teatro que ele escreveu eu já li!), Guimarães Rosa (fodásico!), Murilo Rubião, Fernando Sabino, Patrícia Melo, Rubem Fonseca,Clarice (é claro!), entre outros.
O que tiro desses mestres é que a verdadeira arte da escrita é ser o mais honesto possível, o escritor tem que colocar algo de si, algo de sua alma, algo verdadeiro no que escreve. Um bom livro é meio que um reflexo da mente e da alma de quem o escreve.
6 – O livro tem um número limitado de páginas e, portanto, um número
limitado de coisas que podem ser “enfiadas” lá. O que você quis
colocar e ficou de fora?
No caso dos livros que estou escrevendo, o meu editor não me deu um limite fixo, mas pretendo que tenham algo entre trezentas a quinhentas páginas. O primeiro livro, por exemplo, terá duas partes, são como dois livros de 150 páginas em um só, mas isso pode mudar à medida que o livro for sendo escrito. Outra coisa que estou fazendo é dividir os personagens em pequenas histórias paralelas, algo semelhante com o que o George Martin fez com o Game of Thrones.
7 – Como você está se sentindo a respeito dessa oportunidade?
Estou muito feliz, é uma grande oportunidade. Mas também não tenho nenhuma ilusão. Escrever é uma arte que envolve uma parte braçal também, é ralação, é ter que escrever todos os dias. E como sempre tenho pouquíssimo tempo para escrever, eu transformei a escrita em uma parte da minha rotina diária. Tiro uma a duas horas, todos os dias para sentar e pegar firme na história. E carrego ela sempre comigo, sempre pensando nos personagens, nos eventos e no cenário.
8 – Você já pensou em escrever para outros cenários consagrados no Brasil, como o mutantes e Malfeitores, o Tormenta ou mesmo jogos abertos como o 3d&t?
Claro, e ficaria muito feliz se fosse convidado! No momento estou envolvido no projeto da Trilogia Legião e do lançamento comercial do +2d6, mas estou aberto a convites!
9 – Quais são suas dicas para quem está começando a jogar agora? Que sistemas/cenários você indica para quem acabou de descobrir o RPG?
A primeira dica é encontrar e conversar com alguém que já joga RPG. Essa é a melhor maneira de aprender, jogando com alguém. Eventos de RPG, comunidades online ajudam muito. Caso isso não seja possível, visite sites de RPG como o Lote do Betão ou o NitroDungeon que possuem muito material para iniciantes. Em seguida arrume um sistema de jogo gratuito ou comercial e se anime a mestrar para seus amigos. Eu aprendi com um mestre de RPG mas vi muitos grupos começando onde uma pessoa decidiu ser o mestre e aprendeu através dos livros de RPG. Hoje em dia é possível de um iniciante pedir ajuda a jogadores e mestres mais experientes, seja em blogs, portais ou comunidades da internet. Busque ajuda e tire suas dúvidas. Lá no NitroDungeon, por exemplo, eu posto gravações das nossas sessões de RPG, assim quem quiser saber como a coisa rola na prática, é só dar um pulo lá e baixar!
Atualmente eu recomendo o Old Dragon ou o +2d6 para quem está começando a jogar, mas qualquer sistema é bom desde que exista o interesse. Assim recomendaria o sistema Daemon, o 3D&T, o Mighty Blade, o Gurps Lite e o Gurps Completo, o Tormenta RPG ou até mesmo o D&D 3.5 ou 4.0,etc. Tudo depende do interesse de quem quer começar a jogar. Quando eu comecei a jogar, tínhamos apenas um xerox horrendo do D&D do Frank Mentzer (a caixa vermelha véia), com um monte de coisas faltando! Mas a fissura era tão grande que mesmo com pouco material e apenas copiando o que o nosso mestre fazia, eu e meus amigos criávamos monstros, dungeons, aventuras, etc. E jogando apenas com dados de seis faces!
10 – Muito obrigado por responder a estas perguntas. Existe alguma coisa que você gostaria de acrescentar?
Eu é que agradeço ao convite! E vamos jogar RPG porque RPG é doooidimais! :)
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Bondade, maldade e neutralidade.

Vivemos um interessante momento da história da humanidade. Temos uma rede de informações que conecta o mundo inteiro, facilitando de forma assustadora e inédita a circulação de informações onde antes não existia nada. Em virtualmente qualquer lugar do mundo você pode sacar seu smartphone e postar algum comentário no facebook. Vivemos uma confluência de culturas como nunca visto antes.

O grande problema disso que é nos tornamos escravos de alguns conceitos tidos como universais. Não temos mais nenhum conceito absoluto. Tudo pode ser relativizado. Eu disse pode? Ele deve ser relativizado, sob pena de não estarmos dentro do que a sociedade chama de “politicamente correto”. Tudo é motivo de discussão, cuja profundidade varia desde o pires da filosofia de botequim até os mais profundos cântaros da hermenêutica da ética social.

Relativizamos qualquer coisa: amor, ódio, beleza, estética… nada escapa ao nosso mecanismo das cores de cinza. Nem mesmo a história. Quantas vezes eu não fui testemunha de relativizações sobre os motivos ou os fatos históricos? O que esquecemos é que esta relativização é nova. Antigamente o mundo era bem mais “preto no branco”.

Não podemos esquecer que a nossa relativização também afeta os jogos que tanto amamos. Temos a inclinação de observar o que se passa nos jogos e cenários com a visão pós-moderna. Parafraseando o popular Tim Maia, somos especialistas em fazer o elfo negro bonzinho, o bárbaro calminho, o vampiro que não bebe sangue humano, a prostituta apaixonada, o traficante drogado, o cafetão ciumento…

O que deixamos passar muitas vezes é que bondade, maldade e neutralidade são elementos absolutos no mundo dos jogos. Em cenários medievais clássicos de D&D bem e mal não são sentidos humanos e sim divinos. Perceba que sempre existe um deus “do bem” e um “deus do mal”, num sistema de mitos de antíteses.

Assim a fantasia medieval se permite esses extremos. Permite-se a liberdade poética de uma raça maligna, feita para ser odiada pelos jogadores. Permite-se uma divindade bondosa, cujo abnegado agente salvará a vida dos jogadores em algum momento. E permite igualmente que nestes extremos existam as exceções e os meios-termos. Mas são apenas isso: exceções.

After the War

Então, o que você fez depois que voltou para casa?

Guerra. Pouca coisa anda mais junto ao público rpgista do que esta palavra e seus derivados. Impossível falar de RPG e fantasia sem citar guerreiros, a guerra do anel, a guerra dos tronos, o deus da guerra, a donzela guerreira… Mas muito mais que um mero palco, ou pano de fundo ou um elemento do jogo em si a guerra tem fatores devastadores que pouco são explorados pelos jogadores. Um deles, com certeza, é o “dia seguinte”. O conflito terminou e todos voltaram para casa.

O dia seguinte é muito mais explorado em situações dramáticas do que em outras mídias aventurescas. O primeiro contato que eu tive com o assunto foi com o filme Rambo I. Um soldado boina verde, altamente treinado, que pilotava veículos de milhões de dólares agora é um andarilho sem rumo, desprezado pelo país que jurou proteger e que se sacrificou por ele.  Outra mídia foi um dos números da revista “Combate no Vietnã” que mostrava os recrutas de volta para casa.

A guerra muda a cabeça das pessoas. Ninguém volta de lá do mesmo jeito que foi. Você questiona a sua moral, o que você é, a sua religião, ou simplesmente esconde no fundo de sua mente todo o horror que presenciou – para que um dia isso exploda de forma incontrolável.

Não apenas o psicológico e as pessoas envolvidas no conflito mudam, mas seus corpos também. O que dizer do bardo que foi para a guerra por seu reino e voltou com um braço amputado? Ele ainda tem a sua voz, mas nunca mais poderá tocar seu alaúde. É um preço alto para se pagar. O espaço geográfico também muda: cidades são riscadas do mapa e reconstruídas – ou não. Imagine voltar de um conflito e perceber que a casa que você morou por toda a vida não existe mais? No final da Last War em Eberron sai de cena o reino de Galifar e surgem as cinco nações; no final das Guerras Taurícas, em Tormenta, o Deus da Força é o novo chefe do Panteão, no final da Guerra dos Tronos…

Simplesmente acho que é um gancho muito mal explorado pelos jogadores. Se o seu cenário tem uma guerra ou conflito rolando ou que terminou recentemente você poderia se aproveitar dele para criar um personagem único. Quem sabe você se alistou por vontade própria para servir o seu país, ou simplesmente desertou do campo de batalha, deixando os companheiros de lado? Talvez o jovem idealista que saiu de casa tenha voltado como um amargo mercenário a quem só interesse o dinheiro.

A guerra terminou e como isso afetou você?