Colocando em prática o pensamento crítico

Mestre Mamangava Disse: Eu pediria que houvesse um segundo post explorando mais a “aplicação” do que foi dito acima. Um que explicasse, por exemplo, que se não há a Igreja Católica numa fantasia medieval, precisa haver outra coisa que faça – pelo menos em parte – as vezes dela para que a coisa possa ficar “medieval”, e dê ao mestre o trabalho de explicar por que raios se enterram os mortos de maneira tão “cristã”, ou por que tem cruz num cemitério, ou porque os sacerdotes não podem casar, ou qual a explicação mítico-histórica para que o templo de X fique ao lado do templo de Y sem confusões… …que tal?

Abraço!

 

 

Quando você trabalha com temas como fantasia medieval você tem duas opções bem claras e distintas de se trabalhar. Você vai começar com algo que você conheça e que vai deixar o leitor mais à vontade ou vai jogar tudo pela janela e começar do zero. Seja qual for a escolha que você faça ainda existem elementos que você não poderá deixar de lado. Castelos, armaduras, armas medievais, reis e rainhas, superstições e criaturas mais ou menos mitológicas. Você pode até se livrar de uma dessas opções, mas até por uma questão de gênero, se você se livrar de todas elas você vai ter uma outra coisa que não a fantasia medieval.

A opção mais usada é pegar muita coisa do mundo real – ou seja, da Nossa Idade Média – e usar. Ora, faz todo o sentido, afinal é fantasia medieval. Que lugar melhor para pegar material que a história medieval? Daí você pega o seu livro de história e começa a modificar as coisas que gosta ou que não gosta, adicionando e retirando, num processo que eu chamo de socar a fantasia no medieval.

Daí é que surgem os conceitos ideológicos. Os conceitos ideológicos são aqueles conceitos que não pensamos à respeito. Eles surgem quando emitimos opiniões sem pensar. Quando contamos uma piada, quando escolhemos uma cor de carro, quando dizemos se cremos ou não, estamos dispondo de uma série de posições ideológicas que muitas vezes não temos sequer noção que adotamos. Faz parte do que chamamos de inconsciente ideológico coletivo. Na fantasia medieval esse ideário surge justamente em alguns pontos que o mestre Mamangava apontou: por que tem cruz num cemitério, ou porque os sacerdotes não podem casar(…)? é mais ou menos como uma pergunta que eu fiz muitos anos atrás: se os Flintstones se passam 65 milhões de anos antes de Cristo, por que eles comemoram o natal?

Para muitos autores é melhor deixar os clérigos e paladinos castos, por exemplo. Por que? Nem mesmo os autores sabem. Quando confrontados com um “por que” eles acabam incomodados – o ideário coletivo não gosta de ser incomodado com por quês – e inventam um motivo qualquer (por que a deusa da justiça é muito ciumenta, porque o deus fulano acha o sexo pecaminoso, etc…). Daí a maioria dos autores simplesmente pega esse ideário e joga sem questionar. Faz sentido, não incomoda e é automático: daí acontece o pano de fundo ideológico como acontecia na Idade Média – ou quase.

A segunda opção é jogar tudo isso fora. Tomado da consciência da ideologia subconsciente coletiva o autor pode rejeitar esses elementos, colocando outros no lugar. Daí você tem toda liberdade para criar as raças e costumes medievais deixando de lado todo o inconsciente ideológico. É um trabalho bem duro, mas nem de longe é impossível. Você pode pegar outras culturas que não a medieval. A cultura árabe, japonesa, oriental, nórdica… todo esse pessoal passou por uma era medieval que tinha pouco ou nada dos elementos ideológicos dominantes que estamos acostumados.     

Você pode arbitrar, por exemplo, que os cemitérios sempre existiram – para um grupo ideológico do seu mundo, pelo menos. Terra consagrada por um sacerdote e um símbolo religioso sobre o túmulo impediria que o morto voltasse à vida. Em outros lugares podem simplesmente queimar os corpos em piras funerárias ou fornos para este fim. Mortos em campo de batalha – argumentariam outras culturas – devem ser deixadas lá para que retornem à natureza. Você pode usar a mesma coisa para dar fim, ou mesmo continuidade com outros olhos, a velhos conceitos.

Por exemplo, na sociedade judaico-cristã a virgindade é muito valorizada. Em outras culturas que não têm o apelo judaico-cristã não precisa ser assim. Pode ser que ao completarem 15 anos todos os meninos e meninas de uma determinada raça – gnomos por exemplo – sejam mandadas para o templo mais próximo da deusa do amor. E que só possam sair de lá depois que uma alma caridosa os livrar da condição de crianças frente à deusa. Neste caso, o fim da infância e o começo da vida adulta estão relacionados à perda da virgindade. Imagine como o rei dos Gnomos reagiria ao saber que o emissário dos humanos, aquele senhor de aparência tão sábia, jamais perdeu sua virgindade – porque paladinos têm de serem virgens. Ele jamais confiaria um acordo de paz a uma “criança”. Sim, aos olhos do rei o paladino virgem ainda é uma criança. Você pode até criar expressões que façam alusão a isso. Do mesmo modo que dizemos “cresça, deixe de ser imaturo”, um hipotético gnomo poderia dizer “cresça, torno-se um adulto perante a deusa (perca o cabaço logo de uma vez!)”.

O mesmo ocorre com religiões. Os romanos, por exemplo, eram bastante tolerantes com religiões alheias. Gente que tem suas crenças respeitadas vive mais feliz, questiona menos e trabalha mais. Era comum que religiosos do mundo antigo até se sentassem e debatessem seus ideários, mas era raro que um templo atacasse outro. Estavam muito mais preocupados em louvar seus deuses do que correr atrás da vida alheia. Oh, como eu gostaria que alguns “crentes” se preocupassem apenas com deus…

Assim, modificando pequenos detalhes de forma consciente temos culturas que são realmente culturas e não apenas “pano de fundo sem graça” para modificadores raciais ou poderes extras. É um exercício longo e muitas vezes difícil. Mas é absolutamente criativo e cá entre nós, é melhor ter um bando de gnomos que pregam o fim da virgindade que um monte de barrigudinhos pensando em como encaixar peças e roldanas para fazer uma engenhoca…

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6 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Mestre Mamangava
    dez 23, 2008 @ 02:23:42

    Obrigado por atender ao pedido, Valberto! Parabéns pelo texto! Está, como de costume, muito bom!

    Abraço!

  2. newtonrocha
    dez 23, 2008 @ 10:35:17

    Muito bom o texto, principalmente na parte dos Gnomos! :)

  3. Van Joker Guedes
    dez 23, 2008 @ 15:59:49

    Sempre fiquei muito puto com essas explicações “não sei de nada” que vemos por aí. Nunca se tem uma resposta pra nada, é sempre “ah, deus tal quer assim”, ou então “A deusa se veste assim, por isso eu me visto assim também”….Texto muito interessante e com boas idéias para “desgeneralizar” os mundos de RPG. Vou aplicar muitas dessas coisas na nova Campanha de Reinos de Ferro.

  4. Remo
    dez 23, 2008 @ 21:17:38

    Valberto, novamente um texto que deu muito gosto de ler!
    O artigo, junto com o anterior, clareou diversos conceitos na minha cabeça e creio que, afinal, posso pôr os últimos pingos nos is e transformar aquele proto-conceito de moral do Romância em algo verossímil e funcional. Muito obrigado.

  5. Cochise César
    dez 24, 2008 @ 00:36:57

    muito bom o texto.
    Pensar sociedades como todos complexos sempre faz bem.
    Até mais

  6. Trackback: Repensando as raças básicas I: Elfos « Lote do Betão

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